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29 de jun. de 2013

Eu sabia..

"Dos curtos amores, você me parecia o menos provável. Vivi outros que foram mais intensos, mais longos, mais mentirosos. Os romances passageiros têm dessas coisas: solidão, carência, empatia, atração, simpatia, conversa. A gente cai sem perceber, e quando vê, reúne forças pra levantar.




Quando eu lhe conheci, eu tinha caído, estava me levantando. Não lhe levei a sério, porque não teve entre a gente aquele quê de efemeridade usual: aconteceu, simplesmente. Um olhou, o outro olhou, e de repente, a gente dançava. Foi tão sutil, que ninguém caiu.


E você sempre teve algo que me incomodava e lhe trazia de volta à lembrança. Aos amigos, eu dizia: ele é diferente dos outros. Mas esse discurso bobo já era tão repetido que nenhum deles acreditava mais. “Você é muito romântica”, eles me diziam. Demorei a encontrar essa sua diferença, mas agora eu sei: é a leveza.





Leveza de despretensão, de naturalidade, de conversa sem propósito e se conhecer sem pressa. De respeito, maturidade, sinceridade, paz. Nunca esperei demais, nem você nunca me prometeu também. Mas hoje, eu digo: trocaria todas as falsas promessas do futuro por uma verdadeira vinda de você."


Beatrice Cartiller

1 de jun. de 2011

Desenhei minha casa nova

"Acordei de um sonho. Acabei de levantar e corri pro caderno de desenhos. Sonhei com uma casa nova.

Depois de desenhar o que eu vi no sonho, vim contar o que senti. Ela é grande, de madeira, com decoração leve e com cara de casa de vó. Nada muito moderno, porque modernidade demais acaba afastando a sensação de conforto, de humanidade.

Cheia de livros, guardados nos lugares mais inusitados, e uma sala de estar grande o suficiente para abrigar todos os meus amigos, confortavelmente, e com isolamento de som para que ninguém possa escutar nossas confidências.

Os quartos, sonhei que eram vários, não pensei em números. Imaginei que seriam coloridos, com uma varanda aberta, que desse pro jardim ou para a praia, dependendo do ângulo em que estivessem. De uma forma ou de outra, todos acordariam suficientemente inspirados pra mais um dia de convívio. É uma casa onde compartilharei momentos com as pessoas mais importantes da minha vida, e que nunca ficará vazia.

O meu quarto é espaçoso e confortável, nem muito grande, nem muito pequeno. Com um closet grande o suficiente para que eu possa me olhar no espelho, dançar e cantar nos dias de loucura e chorar sentada no chão sem que ninguém me interrompa. A vida nem sempre é feita de alegrias.

O som da casa é acústico. Está em todos os cômodos. Assim eu posso acordar meus amigos com uma música alegre, ou colocar uma música baixa de ninar, quando meus filhos quiserem dormir.

O sol entra em todos os cômodos, e a luz da lua se amplia onde chega. O espaço no jardim é adequado para uma noite sob o luar, entre pensamentos delirantes e declarações de amor, porque o amor é o alimento do sentimento da casa. Amor entre amigos, entre dois amantes, pais e filhos, irmãos, familiares.

A sensação é de paz profunda e de certeza de que a casa nova é exatamente aquilo que deveria ser. Mais importante do que qualquer arquitetura ou projeto de arquiteto, ela foi desenhada por mim, para agradar a mim e aos que a visitarão, e eu tenho a certeza de que ela será sempre lembrada. Porque a sinceridade e a transparência de seus cômodos, e a sensação que ela passa, são de verdade.

Tenho a imagem, tudo na cabeça. Mas, mais importante que isso, tenho a sensação no coração. É linda de se sentir.

Como é a sua casa?"

Beatrice Cartiller

16 de mai. de 2011

O jogo

"Eu preciso botar pra fora. E não sei fazer isso sem ser escrevendo. (..) Ele quis, eu quis, nós quisemos. Sempre em momentos diferentes. (..) E eu não sei me controlar, porque minhas vontades ficam perdidas quando eu fico perto dele. E ele deve saber disso, porque ele usa essas informações a favor dele como se fosse um jogo. Na verdade, é um jogo. E eu to perdendo feio. Deixei as cartas à mostra, mostrei minhas táticas de jogo. Não tenho mais nenhuma vantagem. Parece que nós só vamos nos entender, se é que vamos, quando a gente chegar num empate técnico. Que agora está bem longe da realidade, porque ele ta dominando o jogo. E eu deixei isso acontecer passivamente, voluntariamente. Sinceramente, eu odeio jogos. (..) Mas não posso deixar que tudo seja perdido por falta de atenção, de cuidado, de minúcia e de análise dos movimentos. Por mais que eu queira que ele seja meu parceiro e jogue do meu lado, primeiro preciso provar a ele que eu sou tão esperta quanto ele. Sabe, como nos filmes? A gente só quer do nosso lado, jogando com a gente, quem a gente acha merecedor dessa posição. Aparentemente, eu sou agora uma oponente que agrada como rival, mas ainda não cheguei ao titulo de parceira. E quer saber? Eu também sinto isso. Eu gosto dele, de jogar com ele. Gosto das horas em que nós nos divertimos. Mas não parei pra analisar se ele merece. Nunca perguntei isso pra ele, nem mostrei que eu queria saber. O que estava em jogo sempre foi a minha fidelidade, a minha competência, a minha dignidade, a minha verdade. E a dele? Se ele precisa de tanto pra me ter como parceira, porque não pode admitir que eu também precise das mesmas coisas? Porque eu nunca deixei isso claro. Porque eu não admiti pra mim mesma que havia essa necessidade. EU preciso saber, também. Se você merece minha confiança, meu crédito, minha fidelidade, se você merece minha entrega. Não quero um parceiro de crime pela metade. Ou o crime é perfeito ou não é. E pra um crime perfeito tudo tem que ser bilateral: a confiança, a crença, o amor, a dedicação, a verdade, a fidelidade. Eu não preciso provar nada sozinha, porque não estou concorrendo a uma vaga em que vou jogar sozinha. Um parceiro que queira o meu respeito precisa me encorajar a encontrar os motivos desse respeito. Estar disposto a me valorizar e a mostrar quão valiosa eu posso ser, caso ele me tenha ao seu lado. Eu não sou a única que precisa provar se sou digna de subir de posto. Ele precisa me provar se eu devo querer isso, se eu devo lutar por isso. Até agora eu lutei por isso porque achei que fosse o certo, porque fui cegada por atitudes acumuladas, erradas, da minha parte. Mas agora os erros ficaram no passado, não sou mais escrava deles. O jogo continua, e os erros do passado só servem pra mostrar a tática que permanece e a que deve ficar pra trás. Se você me quer ao seu lado, também tem que me provar. Também precisa passar pelo labirinto da paciência, do merecimento, da coragem. Esse tempo todo eu tentei provar sozinha que posso ser sua parceira, mas não sou eu a única em teste. Estamos ambos em teste. Você está várias jogadas na minha frente, porque me conhece mais do que eu lhe conheço. Agora vou mudar de tática. Vou esconder meus segredos e meus truques. Se você quiser conhecê-los, vai ter que investigar melhor. Isso significa que você não esta mais protegido como esteve um dia, e que eu vou jogar com armas novas, que você não conhece. Porque minha força de vontade e minha vontade de vencer aumentaram, porque você me enganou. Aproveitou-se da minha fraqueza pra avançar no jogo e me deixar pra trás. E eu sei que nós só vamos poder conversar quando estivermos no mesmo espaço do tabuleiro. Não se preocupe, eu vou lhe alcançar."

Beatrice Cartiller

7 de nov. de 2010

Longe

"Sinceramente, é mais difícil do que eu pensava. Pensar nos meus dias sem você, e sem a possibilidade de você. Agora eu vejo como saber que você tava lá me fazia bem, e me confortava. Do nosso jeito, doido e sem sentido, sua presença ausente me acariciava. Era doce, derretia nos lábios.. Sua ausência é amarga. Imaginar que a ausência é um sinal de que nada mais existe. E poderia ter existido.. a minha tristeza é maior pelo que seria, pelo que viria. E pela incerteza. Incerteza. E a dúvida não é se você sente, porque eu sei que sente. A dúvida é se algum dia sentiremos a mesma coisa, ao mesmo tempo, e juntos. Será? Eu não tenho como saber. Nem você. Pode ser que amanhã tudo seja nada. Mas esse amanhã ainda se delineia no horizonte, me parece infinito, não vou alcançar.. E enquanto isso, o que fazer? Incerto, o meu sentimento? Não. Incerto, sim, o que fazer com ele! Me diga, o que eu faço? Se fosse simples, se fosse fácil, eu abria o porão, e jogava lá dentro. Trancava a porta, tirava a fechadura e não abria nunca mais. Mas mesmo que eu fizesse isso.. ainda ia estar lá. Será que tem um jeito de apagar? Não tem. O sobrenatural não se encaixa. Nada se encaixa entre eu e você. Só a gente sabe como fazer isso. Mas incrivelmente, muitas coisas se metem no caminho. E você agora voa longe.. eu não sou mais um jardim que você vá pousar. Como a saudade é salgada, como a tristeza é.. seca. Olho pro céu e não te vejo.. Fico projetando um futuro que não vai ser. Uma alternativa que não cabe. E o que me cabe?"

Beatrice Cartiller.

26 de out. de 2010

O grito

"A dor é tão forte que nem o grito resolve. Ou resolve? A minha vontade é correr, pisar no acelerador e correr. A tantos quilômetros quanto o meu pé conseguisse pisar, e o carro conseguisse alcançar. E nesse tempo, chorar. Por dentro, e que a dor de dentro fosse pra fora. E fosse embora, junto da velocidade, os pneus deixando os rastros do meu sentimento. E que quando eu freasse, não existisse nada, além de anestesia. Ausência de tudo.
Você me libertou, mesmo não querendo que eu fosse embora. Mas sabendo que não tinha outra saída.. e eu tenho que ir, porque a porta ta fechada pra voltar..
Como eu faço pra controlar? Tudo o que tava apertado, e explodiu de uma vez? Como eu faço pra controlar? A minha vontade de gritar?
Quero correr pro mar.. e gritar. Deitar na areia. Sem pensar. Colocar pra fora..
A tristeza não cabe em mim. Não imaginei que fosse tanto.
Escuto as músicas e lembro. Leoni é minha voz: "A gente é maior do que qualquer razão". Era o que eu queria que acontecesse. Que a gente pudesse passar por cima dela. Como um bicho de pelúcia incômodo. A maldita razão.
Queria pular numa piscina bem gelada, e sentir tudo congelar. Meus sentidos, minhas reações, os sons, sabores. Queria que as imagens parassem de passar na cabeça.. Que o frio parasse tudo. Só sentir meu coração batendo. Pra me lembrar que eu estou viva, e que ele não vai parar de bater. Não vai me abandonar.. A única ausência que eu não quero agora, é a de batimentos.
Me incomoda, mas prefiro sentir a não ter a chance de saber a sensação. Achei que pudesse viver sem saber.. mas saber é poder. Agora eu posso.. entender. Agora eu posso.. tentar entender.
Mas sempre, enquanto eu sorrir e meu coração bater, eu posso sempre, aprender.
E o grito que eu calei, o grito que me fez pisar no acelerador, o grito que me fez chorar e não conseguir enxergar. Chorei e parei de ver. Vi uma cortina de água nos meus olhos.. Como é bom poder viver. Sentir vida. Mesmo querendo que ela parasse, que tudo parasse, eu sinto as batidas e vejo que nada vai parar..
Eu vou gritar. Hoje, amanhã, depois de amanhã. E depois, vou parar de gritar.
As lembranças vão descongelar. E os sentidos.. também. Então, não grito mais, mas sentir, vou sentir, sempre.
E depois, por algum outro motivo, vou gritar. De susto, medo, ansiedade, saudade. De você, de outro alguém, de você, de outro alguém. Quem vai saber? Como eu vou saber? Não vou esquecer.. e vou sempre gritar. Até quando, por você?
Ouça, você vai saber."

Beatrice Cartiller

Leoni- Quem, além de você?

31 de jul. de 2010

Uma visita surpresa

"Hoje não tenho mais saudade. Dele, nem de você, nem daquele outro.
Arrumei a casa, reformei, pintei. Não me fazem falta as paredes velhas. Nem os velhos retratos.
São apenas boas lembranças de um tempo que foi e não volta.
Sinto, sim, carinho, saudade, sorrio, choro. Mas não escolheria mais voltar. Não existe mais nada no meu passado que eu queira voltar pra corrigir.
Achei uma alternativa mais fácil, e também mais divertida! Posso corrigir hoje, amanhã, depois de amanhã, até quando houverem amanhãs. O futuro é meu.
Não sei se terei tempo de fazer tudo o que deixei de fazer, ou de corrigir os erros e fazer diferente. Mas, quem se importa? Que seja feito o que tem que ser feito.
Errei, aprendi. Não erro duas vezes. Mas, ainda sou tão aprendiz.. Serei eternamente.
A cada página em que eu escrevo: vim, vi, venci; tem outra em branco, logo em seguida.
E a melhor parte é saber que as que eu escrevi, sabe onde estão? Sempre comigo! Coladas nas velhas paredes que eu arranquei.
Mas como, se eu joguei tudo fora? Joguei fora porque nem sempre matéria e essência precisam estar juntas. Pode ser que alguns tenham ficado por jogar, mas não tem problema..
O caminhão de lixo sempre vem amanhã. É um bem público, imbutido na taxa que a gente paga todo mês pro governo.
A minha vontade é sorrir! A casa nova é cheirosa. Gosto dela. Decorei com cuidado. Ainda faltam alguns móveis. E sempre vai ter espaço pra souvenirs, e presentes que eu trouxer de algum lugar que eu tenha ido.. Vou pra onde a vida quiser que eu vá. E caso eu queira ir.
Em alguns casos, vou sozinha, dormindo, sonhando. Em outros, pisarei na areia e sentirei os pés queimando. Olharei pro céu e sorrirei da chuva. Sentirei uma paz enorme só por sentir, como agora. Fecharei os olhos pra lembrar daquele momento pra sempre, pelo cheiro, pelo som.
Mas sempre com o coração..
E o medo? Sempre vem. Mas ele só entra quando eu abro a porta. Que ele se disfarce de convidado, se quiser! Pode tentar! Pode ousar! Por mais que demore, vou descobrir suas intenções..
E não há nada, nada, nada mais forte do que um bem estar e um sorriso que venham de dentro. Encontre isso você também, e seja a pessoa mais forte do mundo. Depois venha me visitar.
Beijos carinhosos."

Beatrice Cartiller

18 de mai. de 2009

Não adianta.

"Realmente, quando dizem que algumas partes da sua vida estão além do seu controle, acredite.
Ontem fui dormir e esqueci de fechar a porta. O resultado é que hoje eu passei o dia de porta aberta, e sem querer veio uma ventania e trouxe poeira, muita poeira.

Você insiste em aparecer, e trazer aquela sujeira que eu coloquei debaixo do tapete pra fora! Não adianta, eu varri, lavei o tapete, mas é só um momento de descuido e volta tudo de novo..

Porque é que as coisas não acontecem como a gente quer que aconteça?
Eu preferia ter deletado o dia de hoje. Devia ter ficado em casa, faltado aula, ou estacionado mais rápido. Devia ter ficado dentro da sala de aula esperando o professor chegar. Não devia ter saído pra comprar aquele brigadeiro, não devia ter olhado pra trás quando te vi.

Mas não. Parei, olhei, falei com você. E deixei a poeira correr por toda a casa, ser carregada pelo vento, sujando tudo que eu já tinha limpado.
E agora tudo ficou sujo de novo. Não, não tudo. Algumas partes o vento não conseguiu alcançar. Mas aquela mancha no tapete, a mais difícil de tirar, aquela sujeira que tava grudada, que não queria sair. Eu só tinha começado a limpar! Tirado o que eu consegui tirar, ia começar a lavar..
E o vento vem e suja tudo de novo.

Agora eu não sei mais se quero fechar a janela. Não sei se quero limpar tudo de novo. Cansa. Talvez eu deixe o tapete sujo por mais um tempo, enquanto paro pra limpar o resto da casa..
Mas aí eu sempre vou olhar, e sempre vou lembrar. Afinal, pra quê isso aconteceu? Pra quê me atrapalhar e me fazer começar tudo de novo? Pra me tirar as forças? Pra tirar a coragem, a vontade?
Nesse momento eu só posso me sentir irritada.

Você bem que podia ter seguido outra direção, meu MALDITO QUERIDO vento.
Espero que seja só uma tempestade.
OU então, que seja uma mudança no tempo. Mas se for, que seja estável.
Por favor, que seja estável.. "

BEATRICE CARTILLER

15 de mai. de 2009

Porta fechada, faxina geral.

"Tomei coragem.
Finalmente resolvi trancar a porta, amarrei os cabelos, coloquei aquela roupa velha, e comecei a limpar minha casa.
Realmente, tem muita coisa pra limpar.
O tapete precisou ser lavado, relavado, e ainda continua com algumas manchas de sujeiras anteriores. Aprendi que não se deve deixar a sujeira acumular por muito tempo. Melhor resolver logo, do que adiar e depois carregar as manchas..
Se bem que, mesmo que as manchas saiam, as lembranças não sairão. Mas pelo menos fica mais difícil de lembrar delas sem o estímulo visual correspondente!
Mas eu continuo limpando..
às vezes, alguém toca a campainha. Nessas horas, eu preciso parar tudo, tomar banho, trocar de roupa, e dar um pause na limpeza. Algumas vezes eu saio pra rua pra espairecer, mas já me acostumei a conviver com a ideia de que não adianta fugir de algo do qual não se pode fugir.
As lembranças são minhas, a vida é minha, a realidade é toda e exclusivamente direcionada a mim, não posso esquecer disso por muito tempo.
Mas às vezes as sujeiras se encontram nos lugares mais inesperados. De vez em quando, o susto é tão grande que me deixa sem reação. Mas nada que uma respiração mais lenta e uma distração não resolvam. Tem que resolver.
Na verdade, acho que não podemos viver sem essa limpeza costante. Limpar o velho pra deixar que o novo entre..
E não é somente tirar o sujo. Tem que arrumar e deixar pronto pra que o vento passe, a luz bata, e novas energias se espalhem!
De certa forma, você retira o que você já conhece e deixa espaço pro que não conhece.
Talvez o que me tenha feito adiar algumas vezes essa reorganização tenha sido isso.
Retirar o conhecido pode ser difícil, mas mais difícil ainda é arrumar a casa para uma visita que você não conhece, e para objetos e pessoas amorfas que você só pode imaginar..
É um desafio e tanto. E tudo isso, essa atitude, essa disposição, você precisa fazer por si só, e de coração aberto. Não adianta chamar um outro alguém, porque existem certas sujeiras, na sua casa, que só você conhece, sabe onde se encontram e como limpá-las.
É impossível e surreal tentar fugir de si mesmo. Da mesma forma que é ilusão deixar pra depois ou pra outros a limpeza da sua casa.

No final das contas, você é a sua casa, e a sua casa é um reflexo de você.. "




Ass: Eu, voltando de uma longa caminhada fora de casa.
Beatrice Cartiller

18 de fev. de 2009

O tapete: sujo de novo!

"Verdade que eu achei que você não foi nada pra mim. Que ilusão, doce, a minha. Esqueci de lembrar! Sim, esqueci que o tempo não importa! Quando você se entrega, cinco minutos de cumplicidade podem demorar anos para serem esquecidos. Ah, e agora? Lembrei tarde, e o meu castigo é não esquecer mais.. não esquecer aqueles poucos momentos, nem as poucas verdades compartilhadas. E eu já não sei que decisão tomar. Se coloco o doce pra fora, ou continuo sentindo o aquele leve sabor ser substituído por um gosto mais amargo..
Talvez tivesse sido melhor se você tivesse mentido, ou simplesmente sumido. Talvez assim a lembraça virasse um borrão no meu pensamento. E eu não precisaria mais pensar nisso, a não ser como uma pequena saudade. Mas quando você volta, e espalha no tapete tudo o que eu cuidadosamente tinha guardado, eu fico com raiva, e perdida. Com raiva, porque tudo o que eu arrumei, você bagunçou de novo. E perdida, porque eu não sei se quero arrumar de novo, ou me acostumar com a idéia que nem tudo é como eu quero que seja.
O que eu não consigo entender é o que se passa na sua cabeça. Qual é a sua intenção com essa desordem toda? Eu acho que nem você sabe.
Agora são mais noites sem dormir, inquietas, pensando no que você pensa, no que você não pensa, no que você deveria pensar. E vendo a sujeira se acumular na bagunça encima tapete. Eu fico me perguntando se vou ter coragem de limpar tudo, ou se vai continuar assim.. Eu me enrolando, fingindo não ver, e você feliz porque causou esse incômodo, na minha cabeça, na minha vida, na minha casa."

Beatrice Cartiller

30 de dez. de 2008

Tudo que vem fácil, vai fácil.

"Você realmente achou que eu dependia de você, né? Ou pelo menos, que a partir do dia que eu conheci você, nada mais importava. Engraçado, eu também pensei isso. Que postura precipitada a minha.. você era o complemento. E eu fiz de você o ator principal. Era o que você queria, não era? Mas aí, depois que você fez sua apresentação, se levantou e foi embora. AH, mas agora eu já entendi.. A única atriz principal desse drama sou eu, e, se você quiser atuar junto comigo, vai ter que passar por uma bateria de testes, pra quem sabe numa hora dessas eu achar que você merece uma chance. Uns poucos minutos de protagonista. Tudo por merecimento, é claro. E podia ser diferente?"

Beatrice Cartiller

4 de dez. de 2008

Para um alguém.

“Você me inquieta. E até me aterroriza. Não que isso seja ruim.. depende do ponto de vista. Eu fico inquieta porque não posso saber onde você está, como você está - pelo menos não sempre que eu tenho vontade. Porque eu ainda não sei a sua comida favorita, a música que te faz chorar, seu maior sonho. Tampouco sei seu maior medo. Não sei no que consiste a sua felicidade.. e nem se eu posso fazer parte dela. Eu penso no jeito que você dorme, se você ronca ou se respira baixinho. Eu tento imaginar você irritado. Será que eu conseguiria te acalmar? Eu penso nos seus pais, e tenho vontade de conhecê-los. Para entender exatamente de onde veio esse sorriso, esse “você” que me deixa rolando na cama. Crio situações na cabeça, eu posso, né? Mas preferiria vê-las acontecendo. E até ver o que eu não ousei criar. E se a gente brigasse, você me mandaria uma mensagem pedindo desculpas no mesmo dia? Ou você ia me deixar dormir chorando? Eu não deixaria você assim. Ah, mas se depois de cada briga, a gente passasse uma noite deitados bem abraçadinhos, eu ia inventar um motivo pra brigar.. e depois ia beijar você e te fazer cafuné, olhando pros seus olhos e vendo o carinho com que eles me olham. Me inquieto porque minhas mãos coçam! Elas me pedem seus cabelos pra acariciar, suas mãos pra entrelaçá-las. O que eu digo a elas? Meus lábios estão secos. Não adianta: nem água, nem a minha saliva. Eles querem a sua boca. Minhas pernas.. não param de balançar: querem ir ao seu encontro. O que você me diria se eu confessasse essa necessidade de você? Você diria que é dependência, carência minha? Ou abriria os braços e me apertaria entre os seus? Não é carência! Porque só você serve. Desde a primeira vez que meus olhos bateram em você.. e eu precisei saber seu nome. Seu sobrenome. Suas histórias de infância. Suas lembranças da escola. Quis conhecer seus amigos, ver suas fotos, quis entender o que era importante pra você. Quis SER importante pra você. E quis tudo ao mesmo tempo! As vontades vieram como uma chuva forte. E minha roupa continua molhada. Não. Eu não sinto frio! E é isso que me aterroriza. Meus sentidos.. Eles pedem.. eles chamam.. Mais chuva! Mais água! Mais gotas de orvalho molhando minha pele, escorrendo pelo meu corpo.. Evaporando, saindo pelos meus poros. Mais, mais.”

Beatrice Cartiller

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