27 de fev. de 2012

Por uma carona e uma conversa

Hoje eu voltei às aulas pela manhã. 
As viagens para a faculdade quando eu acordo costumam ser produtivas, a disposição do dia inteiro pela frente.. e unindo isso ao primeiro dia da semana, eu estava relativamente inspirada, apesar de ter dormido tarde - da lista daqueles vícios de estudante em épocas sem aula.  

Então, eu sou meio curiosa. Gosto de olhar as pessoas dentro dos carros e como elas são, e imaginar pra onde elas estão indo. Se são casados, se pai e filho, irmãos, enfim. 
Hoje olhei pra frente e vi todos os carros ao meu redor, no meio daquele emaranhado de automóveis agoniados querendo andar logo e passar na frente de todo mundo, e reparei numa coisa: todos estavam sozinhos. Sim, incluindo eu.
Não havia ninguém ao lado de nenhuma das pessoas, e a maioria me parecia estudante ou professores a caminho da faculdade. Fiquei pensando no desperdício, desperdício de conversas e amizades que poderiam estar sendo feitas se ao invés de 5 carros existissem 2, e cada um deles com outro alguém, além do motorista. 
Sim, porque afinal de contas a vida de dirigir pelas ruas, indo e vindo, é solitária. Cada um no seu mundo, ouvindo seus cantores preferidos e divagando sobre sonhos engavetados ou promessas a serem cumpridas. 

Eu sou a favor da individualidade, enquanto capacidade de um ser humano viver a sua vida, de acordo com seus próprios conceitos, buscando a sua felicidade e seguindo seu caminho. Mas eu acredito que a cena dos carros representa um pouco do que essa vida cheia de compromissos, desejos íntimos (e egocêntricos, talvez) e redes privadas tem causado das pessoas. E a evolução.. toda essa quantidade enorme de parafernália que fazem nossos familiares, principalmente os nascidos antes da década de 60, ficarem de cabelo em pé. 
Digo, a propaganda chama de evolução. 
Não vou ser hipócrita de negar suas vantagens e a gama de benefícios que realmente são fruto dessa tecnologia e do desenvolvimento de novas ferramentas, meios de transporte, comunicação, etc. 
Sim, hoje se pode tratar um câncer, viver uma vida tranquila tendo AIDS, falar com o namorado do Brasil direto do Japão online, publicar um vídeo e arrecadar dinheiro pra uma causa em poucos dias. E outros tantos. 


Somos tantos.. e tantos querem ser mais ainda.

Contudo, me pego confabulando: grande parte das pessoas anda saindo de casa e deixando a razão no congelador - deve ser.
Vamos pensar.. todo o tipo de grupo existe em menor quantidade de pessoas hoje, do que antes. As comunidades, as igrejas, os amigos. Existem mais grupos com menos pessoas.
Cada um quer ser especial e diferente, moderno, inovador, se destacar no trabalho, em casa, com os amigos. Eu pergunto: quanto custam essas independências?

Com certeza é sem igual a sensação de sair de casa com o seu próprio carro e resolver a sua vida. 
Mas dentro daquela coisa grande de metal, cheia de motores e pedaços que se quebram, e pneus que furam, isolado do externo e protegido inclusive de raios, as pessoas não perdem somente tempo no trânsito, como um pouco da humanidade. Isso sem falar do caos.

Ah! Se o sistema de transportes ajudasse, e a segurança fosse maior.. 

Dirigindo sozinhos, no controle de suas vidas, são levados a acreditar que todas as esferas devem ser conduzidas da mesma forma. Os erros são facilmente corrigidos depois de uma certa quantia de dinheiro ser paga, entrar na contramão não é errado, contanto que ninguém veja, passar dos limites na velocidade? Tudo bem se não tiver radar! E assim, vão ficando impacientes, intransigentes, irresponsáveis, intolerantes, mal educados, egoístas. Não me refiro a todos, em todos os momentos. Mas um ou outro, um de cada vez (ou juntos, vai saber) pensou dessa forma, e nesse caso a soma das partes é quase igual ao todo.

Por causa disso, cada vez que vejo o IPI ser reduzido, e saio de casa e me deparo com aquele mar de luzes    de freio diante de mim, eu fico desejando e temendo, desejando que a vontade de dar ré e ir mais devagar esteja presente aqui e ali, e temendo que essa esperança infantil se perca nas horas diante do semáforo vermelho.  

S-O-C-O-R-R-O! Como se já não bastasse! 


Tudo isso, claro, sem considerar os méritos dos governos, a ausência de uma infraestrutura viária adequada e de segurança pros usuários. Mas eu acredito que enquanto os serviços públicos continuam os mesmos, pelo menos as pessoas poderiam ser diferentes. E por isso eu não nego caronas, nem as boas conversas que são frutos delas. 

Modéstia à parte, eu sou muito boa motorista. 

23 de fev. de 2012

A alguém

Que meus desejos neste texto sejam os mesmos de muitos, e que se tornem realidade para tantos quanto possível..


À nos, desejo..
Que o amor seja nossa lei primeira: direito e dever;
Que você me entenda, ou pelo menos tente;
Que você cuide de mim, mas também me deixe cuidar de você; 
Que você preze por mim, mas que controle o ciúme: ele é mais sinônimo de insegurança do que de amor.
Que você ceda aos meus caprichos às vezes, e que eu faça o mesmo por você. 
Que você cresça na sua carreira, e me deixe livre para crescer na minha.
Que a gente saia para festas às vezes, mas que também fique em casa. Sejamos moderados.
Que a gente beba socialmente, mas evite ficar bêbados, e de certa forma, desrespeitar o outro com isso.
Que você seja cavalheiro, e eu feminina. Mas que os preconceitos da sociedade tenham medo de nós: só somos amigos do que queremos.
Que a gente confie um no outro, em todos os sentidos.
Que sejamos sinceros, e saibamos ponderar a verdade e como ela é dita.
Que a gente fique junto ate o dia em que eu imaginar você como o único caminho que me faria feliz, e que você sinta o mesmo.
Que se a gente brigue, fique inquieto a ponto de não dormir brigados.
Que nosso orgulho seja dissolvido em nome do amor que a gente sente.
Que eu sinta saudades de você depois de um final de semana inteiro juntos, e, antes que eu te diga, você me diga exatamente a mesma coisa.
Que tenhamos sonhos compartilhados.
Que, caso a gente case e tenha filhos, eles sejam educados recebendo de cada um o que temos de melhor. E que eles saibam o que temos de pior, nossos defeitos, e consigam superá-los.
Que a gente não brigue na frente deles.
Que a rotina não nos entendie. E quando isso acontecer, que a gente de um jeito de desentediar.
Que você sorria com a minha alegria, e sinta a minha tristeza. E que eu faça o mesmo.
Que sejamos a força um do outro, quando a nossa nos faltar.
Que nossos olhos se comuniquem sem palavras.
Que o respeito seja a base do nosso amor, e que, caso ele acabe, a consideração faça com que nos resolvamos em paz.
Que nos calemos pra ouvir um ao outro.
Que conversemos sobre o que concordamos, e a discórdia seja um exercício de paciência.
Se houver algum problema, que sejamos os primeiros a saber.
Que a nossa individualidade seja apreciada, mantida e incentivada.
Que saibamos rir, inclusive e principalmente do que não tem graça.
Que sejamos civilizados um com o outro, e o dia a dia nos fortaleça e reforce nosso amor.
Que eu saiba seus gostos, e você os meus. Mesmo que não toleremos alguns deles.
Que a serenidade seja nossa amiga, e a sabedoria nossa guia.
Que eu te acorde e te ame mais do que quando fui dormir, e você também.
Que estejamos dispostos a mudar quando necessário, pelo outro e por nós mesmos.
Que a gente se esforce para afastar o egoísmo e a inveja das nossas vidas, e que os outros saibam de nós o mínimo possível.
Que nossas conversas se estendam pela noite e a gente não sinta as horas passarem;
Que nosso amor seja nosso motor, e o sorriso nunca nos abandone.
Que nós vamos às estrelas: juntos. 


20 de nov. de 2011

Old thoughts, but still.



Já tentei me lembrar de quando, exatamente, eu comecei a escrever. E como foi o processo de “aprendizado”, adaptação e tudo o mais. 

Eu não me refiro ao ato de escrever como alfabetização, e sim ao momento que eu sentei e escrevi pela primeira vez meus pensamentos e percebi o quanto se pode fazer com um pedaço de papel..

Hoje em dia, quando alguém lê o que escrevo, acho engraçado receber os elogios. Na maioria das vezes, eu olho o que eu escrevi e penso: que texto fantástico. Esqueço que fui eu quem escreveu. 



Acho que aqueles que escrevem vão concordar comigo quando eu digo que escrever é uma atitude que vem de dentro pra fora. Não adianta que você me peça pra escrever sobre uma coisa, se eu não estiver disposta a fazê-lo. Por mais opiniões, idéias e pensamentos que eu tenha, eles vão travar. Claro, algumas vezes o meio consegue esse feito, de arrancar de nós, mas nunca sem a nossa permissão.. ah, é uma luta entre razão e emoção que desde cedo nós aprendemos a equilibrar. 

Não sei quando, nem como eu comecei. 

Mas se alguém me perguntar o porquê, eu sorrirei e responderei com o maior prazer, com poucas ou muitas palavras, os meus motivos. Na verdade não é um só. São muitos. 
Eu sempre gostei de ler.. o que eu mais gosto na leitura é que ela desperta a minha criatividade, porque aquilo que eu leio certamente um dia aparecerá nas minhas palavras, se for de alguma importância para mim. 
E porque escrever? Eu penso que cada um tem o seu próprio modo de enxergar as coisas, e que isso é um espelho para o que você vem a expressar. Em atitudes, sentimentos, palavras. 
Já escrevi e dissertei oralmente sobre diversos assuntos, e essa é uma das atividades em que eu sinto mais prazer; me deparei com opiniões contrárias às minhas inúmeras vezes. 
O que eu acho prazeroso nessa diversidade de mentalidades é que dela e nela podemos fazer amigos, bem como inimigos, e podemos passar do ódio ao amor, ou, ao contrário, do amor ao ódio.

Antes fosse somente na hora da pizza que houvesse discussão..


Não há nada que una e separe mais as pessoas do que a filosofia. Como filosofia entenda a arte de contestar, pensar e discutir. É o que podemos chamar de “liberdades de pensamento” diferentes. Porque na verdade, não há liberdade completa. 
Mas, ao mesmo tempo, os contrastes são tantos, que muitos se abstêm de adentrar nesse universo. E preferem manter-se numa posição em que as nuvens de pensamento adquirem a mesma cor, mesma textura, mesma “amorfidade”. 

Se você é uma dessas pessoas, me desculpe, mas eu preciso dizer: “Acorde!”. 

Aceitar passivamente tudo o que lhe é oferecido é covardia, irresponsabilidade, desperdício. 
Você pode argumentar, e com razão, que mesmo aqueles que pensam e fogem dessa inércia não seguem tudo aquilo que acreditam, pregam, sentem e desejam. Mas, como poderíamos? A nossa vida não depende somente de nós mesmos. 
Estamos inseridos numa sociedade, um agrupamento de indivíduos, e não podemos simplesmente ir contra o pensamento uns dos outros. É uma atitude impossível de realização. 
O caos, decerto, seria a palavra de ordem se isso acontecesse. 
Não que não aconteça, afinal cada um é livre para fazer o que bem entender, e muitos não seguem o conjunto de leis criadas pra controlar e organizar a entropia tendenciosa da convivência humana. Ainda assim, não é o lugar-comum. Ainda bem. Mas pensar e nem sempre agir conforme o que se pensa não é hipocrisia! Simplesmente faz-se o possível. 

"Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão sobre nós mesmos." (Carl Gustav Jung)

Cada um anda e respira dentro do seu “metro quadrado”. Mas dentro desse, as possibilidades são infinitas. E o que me perturba é especificamente o ato de desconhecê-las. Porque elas existem. 
Mas eu não posso chegar para você e dizer: é isso, aquilo e mais isso. Engula! 
Por isso eu escrevo. Eu tento, com os meus pensamentos, despertar nas pessoas o que já está muito acordado em mim. 
Todos temos a semente. Mas nada cresce sem ser cultivado.. eu dou a luz, mas a água, cabe a você dá-la..


3 de out. de 2011

Nossos antepassados estavam errados?

Todos que escrevem tiram inspiração de algum lugar. Dos amigos, das noites de conversa, dos relacionamentos, da televisão, de filmes, da vida alheia ou da própria. 
A mim, inspiram todos os citados. Porém, as palavras sobre este ou aquele saem mais coordenadas quando escrevo fisicamente cansada. Inebria-me o cansaço. E dele retiro palavras e coordeno pensamentos, sobre os quais em pleno vapor não tenho controle.

Hoje, inebriada como estou, venho escrever sobre uma teoria que ousei confabular ultimamente. 

Não procurei saber se existe algo ou alguém que fale, como aqui vos falo, porque pra mim o conhecimento amplia o saber, mas limita de certa forma a criatividade. Sim, a mente criativa precisa ser livre, sem restrições e regras a obedecer!


Venho falar do preconceito. Não para julgar ou dizer-lhes sobre certo e errado, ou sobre condutas aceitáveis, nem para pregação qualquer. 
Parando pra pensar, percebi que existe uma diferença interessante sobre onde e como o preconceito se manifesta hoje, do que ele era antigamente. Por antigamente, me refiro à épocas anteriores à Revolução Industrial, à globalização e a toda essa gama de compartilhamentos e divisões que presenciamos hoje.


Luis XIV, rei sol francês 
Cena onde Luis XIV dança com sua noiva austríaca, Maria Antonieta, cujo nome entitula o filme

Sim, na época em que havia reis em quantidade significativa, onde as pessoas matavam usando espadas, traição era motivo de enforcamento, as guerras tinham propósitos que podiam não ser nobres, mas cujos guerreiros acreditavam e honravam com a vida. Onde os casamentos deveriam ser para sempre, filhos viviam sob olhar atento e cuidadoso dos pais, e recebiam ensinamentos na mesa de refeições - tanto mais cedo, melhor. Meninos de 16 anos eram guerreiros, e meninas da mesma idade eram esposas. Temia-se uma infecção como se teme hoje a AIDS, a morte era uma sombra que acompanhava todos a todo momento, e os amores eram intensos e quentes. Havia adultério, venerava-se o sexo e a bebida depois de uma batalha, as mulheres tinham menos direitos e deveriam servir aos maridos. Uma época em que uma conduta deveria ser seguida, sem questionamentos, e revoltosos eram punidos, também sem questionamentos. Tempos sobre os quais se faz necessário ler a respeito, e ver filmes que nos façam crer no que vemos, onde os valores como a honra e o respeito eram fortes e soberanos, e um rei não era questionado. Decerto, tempos imperfeitos.. 




Mas, relembrando a mensagem do filme de Woody Allen, Meia noite em Paris, os tempos nunca são perfeitos. Verdadeira a afirmação, que os personagens do filme vivem em nostalgia otimista, com recheio de realidade pessimista. Perfeito, somente aquilo que não podemos possuir e não nos cabe.
Pois bem, nessa época sombria da qual os livros resumem a guerras e (r)evolução, já havia preconceito. Um preconceito escancarado, quase sinônimo de hipocrisia, visto que quase nenhum desvio de conduta era aceito, pelo menos oficialmente. Por ser tão simples o caminho certo a se seguir, pode-se pensar quão honrosos e honestos foram os nossos antepassados.. a armadilha da nostalgia. Sem me ater a elogios ou críticas, ouso afirmar que, bons ou ruins, eles eram mestres em uma coisa: ouvir seus desejos, seu coração, seus instintos e sua própria expêriencia. Por isso, esposas desonravam maridos, amigos matavam-se em batalha, irmãos depunham pais do trono, variações do que se vê hoje, e do que se vê em qualquer tempo. O que mudava, era o tal do preconceito. 

Quase tudo concebido como regra, um desvio era erro terrível. Ficava fácil cometer um destes erros, enquadrando-se assim no grupo dos errantes, e talvez até pecadores. Citei apenas poucos erros, mas existem muitos outros. Porém, nessa sociedade onde muito se proibia, as pessoas que quebravam as regras (na surdina) sentiam-se menos culpadas, menos psicologicamente afetadas, em suma, eram bem resolvidas. Sabiam o que queriam e faziam como queriam. Suas vontades eram atendidas, e o preconceito era parte integrante, oxigênio que todos respiravam, mas com a diferença de ser externo a eles. Rondava a todos, mas não era uma praga tal como a gripe espanhola. Absorviam culpa ou reprimiam intenções, apenas os que queriam, de resto, sabiam agir e responder por seus atos. Se não de espontânea vontade, de uma forma ou de outra, vinham a pagar por eles.

Hoje, o que mudou? O preconceito que circulava nos ares da sociedade, inebriando a um ou outro pelo caminho, entrou na cabeça de todos. Assim, não se assemelha mais a uma droga, cujo efeito pode ser forte, talvez irreversível, porem em sua maioria, temporário. 
Não, nada de temporariedade, o pre-conceito, os julgamentos de valor, a incompreensão e variações destes passaram a ocupar grande parte do pensamento da sociedade contemporânea. Ou, como diria Zigmunt Bauman, da Modernidade Líquida. Como tudo que não tem forma, nem cor, e muda constantemente para se adaptar, os descendentes daqueles antepassados apegaram-se ao que lhes é externo, sem saber (nem perceber) que não conseguirão fugir do que os assombra: o medo de ser julgado, a vontade de julgar, a vergonha de assumir seus desejos, suas vontades, de seguir seus instintos, a falta de coragem de enfrentar as consequências de seus atos, todos esses fantasmas estão infiltrados no imaginário da humanidade ocidental. Tal como o inconsciente coletivo de Jung, atormentam e impedem que possam ser originalmente felizes, ainda que sob risco de comportamentos inadequados. 

O que eu quero dizer, aonde eu quero chegar? Na ideia de que o que antes era exterior, e por isso controlável, tornou-se interior a (quase) todos.. Portanto, a concepção de fugir dessa epidemia de preconceitos tornou-se dado, desafiador e ato de coragem dos que o fazem. Seguir a maré hoje, apesar das liberdades conquistadas, virou regra mais imponente do que quando não se tinha tanta opção de escolha. 
Constatação contraditória, como tantas outras, e pelo menos aqui, sem intenção nenhuma a não ser a de despertar a reflexão.

Dizemo-nos mensageiros do novo mundo, um mundo de iguais e livres, felizes plenos e saciados nos desejos terrenos. Uma Utopia digna de Thomas Morus, e talvez mais hipócrita do que nos tempos em que as pessoas sabiam-se diferentes, infelizes, tinham medos maiores e morriam do que hoje deixa-nos de cama por dois dias.. 



30 de set. de 2011

Saudosidades - Última parte



Parou na lembrança de seu penúltimo aniversário, quando completara 25 anos. “Eu tinha ido trabalhar somente pela manhã, planejava encontrar meu namorado para o almoço e dali iríamos para a casa de uns amigos na serra, comemorar no fim de semana. Lembro de como estava frio e como o clima estava agradável na viagem, e de como eu tinha achado estranho aquela quantidade de carros estacionada no condomínio, para uma noite de sexta-feira, num final de semana comum. E como de repente saíram pessoas de todos os lados, assim que desci do carro, gritando surpresa e me abraçando, era minha primeira festa surpresa. Mas a maior delas viria no final da noite, quando inesperadamente meu namorado na época me pediu em casamento. A única lembrança que tenho foi que chorei e balancei positivamente a cabeça, um dos poucos momentos na vida em que perdi a fala..”
Abriu os olhos e viu que já havia escurecido. Levantou-se, foi comer alguma coisa e deitar-se. O dia seguinte prometia ser cheio.
Seis horas da manhã, sabia que o primeiro convidado chegaria logo. Um a um, diversos carros foram chegando, de amigos que iriam ficar hospedados na sua casa ou em algum hotel próximo, todos aqueles que haviam povoado suas lembranças do dia anterior. Seus pais, amigos de infância, de faculdade, familiares, ao final da tarde todos já haviam chegado. Estava se arrumando no quarto, sua mãe estava no quarto ao seu lado, conversando sobre trivialidades. Quando ficou pronta, saiu do quarto e viu que ele estava a sua espera. Sorriam um pro outro, abraçaram-se enquanto ele dizia em seu ouvido: está pronta para sua última noite de solteira?
O jantar estava na mesa e todos estavam esperando que os dois descessem. Não conseguia conter a alegria de ter conseguido reunir tantas pessoas especiais para ela e seu noivo, e de saber que casaria assim que o sol nascesse. Quando o jantar terminou, ela se levantou e pediu pra falar:
            - Hoje eu vou falar, ao contrário do dia do nosso noivado. Mas vou ser breve, porque não quero perder um minuto a mais da companhia de todos vocês, aqui presentes. Então, além de agradecer por terem vindo, quero agradecer por terem feito e ainda estarem fazendo parte da minha, da nossa vida. Amanhã vou me casar e dividir a vida com o homem que eu escolhi, e a alegria que isso me traz só não ganha de uma. A de ver todos vocês e poder olhar pra trás, as lembranças que temos, e também imaginar que teremos muitas outras. Querido, me desculpe, mas a verdade é que, a partir de amanhã você vai ter um grande pedaço do meu amor, mas vai ter que se acostumar a dividi-lo com todas as outras pessoas da minha vida. Eu não seria nada se qualquer um de vocês estivesse faltando. Obrigada!
Foto: Maíra Erlich  

         

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