22 de ago. de 2012

Um mais um = infinitum

Algumas vezes eu já parei pra pensar a respeito de pessoas do meu convívio com as quais não me dei bem, ou quando, pela experiência de outros, acontece a mesma coisa. 
Sobre aquelas pessoas que se denomina pejorativamente ou negativamente, com defeitos que vão desde comportamento até questões de caráter, ou aquelas que julgamos pelos erros que cometeram. 
Parei pra refletir sobre elas com mais cuidado quando, em um livro que fala da vida de Nelson Mandela, uma passagem trata do assunto. 

Esse é o livro.



No trecho, Mandela afirma que você não pode julgar um homem nem pela melhor coisa que ele fez na vida, nem pela pior. E que na verdade, para saber o caráter de alguém, você precisa ponderar toda a sua vida, o que só pode ser feito depois que ela tenha falecido. 
Essa afirmação ficou na minha cabeça.


Acredito que, da mesma forma que o caráter, muitas outras características não devem ser atribuídas a alguém que não conhecemos em absoluto, por uma experiência singular que tivemos com aquela pessoa. 
E daqui vem a continuação do meu pensamento, já que acredito que cada vez que duas pessoas se relacionam, o resultado nunca é o mesmo. Independe do tempo, da natureza e do objetivo da relação.





Por isso digo: um mais um como resultado o infinito. 





Porque, de uma relação entre duas ou mais pessoas, os envolvidos não vão sempre representar os mesmos papeis ou ocupar o mesmo lugar no contexto, tampouco participar da mesma forma ou agir do mesmo jeito. Mesmo que o caráter da relação seja o mesmo, e um dos envolvidos seja o mesmo, a dinâmica dois a dois (e ampliada, três ou mais), não é estática e a reprodução não depende da combinação mais do que da probabilidade de acontecerem naturalmente. 

As variantes são inúmeras, impossíveis de serem replicadas em condições naturais de forma a criar uma varíável independente confiável o suficiente para que se chegue a alguma conclusão, conceito estabelecido ou teoria validada e comprovada. 

O que estou sugerindo? Que, apesar das tentações, tipicamente humanas e em certo ponto reiteradas pela prática social, de tirar conclusões ou realizar previsões de comportamento, eu sugiro que as relações humanas são dotadas de uma beleza singular: são sempre exclusivas, descaracterizáveis e dinâmicas. 

E que cada uma das futuras pessoas que você venha a conhecer ou conviver com, pode (e possivelmente vai) te surpreender. 

8 de ago. de 2012

Puzzle


Costumo dizer que existem momentos em que viver demanda toda a dedicação, e a criatividade se direciona para essa ou aquela esfera do convívio. Porém, talvez hoje eu venha refutar a minha própria afirmação, porque percebi que quando tudo anda nos trilhos, ou da forma que sentimos que deveria estar, alguma coisa acontece com o tempo. Digo, sabemos que é mesmo um conceito relativo. Varia conforme não somente questões físicas, como de percepção, emoção e condições da própria natureza afetando nossa vida. Mas, além disso, posso afirmar com toda a certeza que, em certas ocasiões, a vida se transforma em um quebra-cabeças montado. 


Aquele momento em que você olha pra peça à sua frente e enxerga tudo no seu devido lugar. 



Parece, inclusive, que foi sempre assim, tamanha a sensação de realização e pertencimento, reconhecimento mascarado de gratidão, uma respiração profunda de alívio e orgulho. E, nesse momento, não somente as peças se completam como o tempo se ajusta. E de repente, o que era pouco, torna-se muito. Há uma amplificação do tempo e do espaço que não pode ser explicada senão pela concordância em desconhecer certas realidades que não nos cabem. 

Infelizmente, não podemos e não temos acesso a essas sensações com certa frequência, até porque é preciso o tempo de montar o quebra cabeças antes de alcançar o prêmio de vê-lo devidamente encaixado. Da mesma forma, essa sensação não dura para sempre, motivo pelo qual passamos longos períodos relembrando a última vez em que nos sentimos assim, esperando pela próxima. 

Estando você diante de um momento de contemplação da "obra-prima", ou em processo de realizá-la, a garantia irremediável é que ambos os momentos vão passar, e alternar-se. E um não existiria sem o outro. 

Desse dado, percebemos que assim como o tempo e as impressões que temos dele, acredito também que assim seja com a felicidade e o que entendemos por ela: processo e/ou conclusão. 


Como você a vê?





4 de mai. de 2012

Neither black nor white


Quem dera minha geração tivesse vivido nos tempos da televisão em preto e branco. 

Assim, talvez tivéssemos algum entendimento sobre esse mundo que de tão colorido, ofusca a visão e engana os sentidos. 

Mas nossos pais, nem eles, sabem dizer. 

Tentaram nos ensinar que decisões são A ou B, mas dificilmente lembraram de acrescentar que entre A e B existem variações e combinações, AB, a, b, AA, BB. Provavelmente não sabiam como explicar essa confusão de análise combinatória misturada com aula de genética humana, enquanto ainda éramos crianças brincando de boneca, pega pega, queimado, bola de gude e esconde esconde. 


Doces tempos, nostalgia eterna..



E então a gente cresce e a realidade se apresenta misturada, confusa e cheia de contrastes. A nossa primeira reação é a de buscar A e B, calma ou desesperadamente, a depender do medo que carregamos e do susto que tomamos. Busca fracassada, finalmente compreendemos que são bonitas teorias que reprovaram na prova da vida real. 

Nos pegamos diante de um mundo diferente, onde nem tudo é o que parece, e pior, mesmo parecendo, temos dificuldade de encaixar nessa ou aquela definição. Que estereótipos não definem e as surpresas surgem do mais inesperado ponto do caminho.   


E agora? Pra onde ir?

E que, ao contrário das histórias que ouvíamos deitados na cama, vendo personagens coloridos pintados em situações no papel, inocentemente delineando um caminho e seguindo por ele, enfrentado lobos maldosos pintados com um sorriso meio assustador, nem sempre sabemos o que fazer. E pode ser que, no meio do caminho que havíamos traçado, a decisão pelo mesmo venha a parecer insensata, burra e infantil, e nesse momento enfrentamos uma decepção interior, pelo castelo desenhado no nosso imaginário que se mostrou de areia, quando críamos ter sido feito de tijolos e com vigas bem colocadas. 






Por isso, talvez tenhamos que voltar tudo e mudar pra outra direção, e por mais que essa seja a decisão certa naquele momento - porque, novamente, podemos considerá-la errada em um futuro próximo ou distante, o arrependimento por não ter feito diferente vai ser um companheiro constante a partir dessa inversão de sentidos. Que inocente, que idiota, que imaturo! Xingamos nossos eus do passado com tanta convicção e furor que chegaríamos a duvidar se pudéssemos nos ver de fora.

Acredito que seja esse o motivo do Felizes para sempre nas histórias infantis. 

Porque em cada momento, um final feliz é possível, e o que pode nos fazer felizes hoje não necessariamente nos fará felizes amanha. 


Assim, se as historinhas fossem continuar mostrando o que vem depois do Happily ever after, elas nunca teriam fim.



Porque as vidas são vividas até o último suspiro, e nesse intervalo entre começo e fim, a constância é a mais vulnerável das ilusões. 









Mas não seríamos capazes de compreender conceito tão abstrato enquanto pequenos, enquanto criadores de mundos paralelos em que a realidade não cabia. Por isso, somente quando despertamos da infância conseguimos compreender quão relativo podem ser os conceitos começo, fim, felicidade, e, principalmente, eternidade.

Portanto, apreciemos renovadamente a grandeza das palavras de um talentoso, porém tambem efêmero, personagem da poesia brasileira, que foi feliz e sábio ao afirmar: 





Salve, Vinicius de Moraes!




22 de abr. de 2012

Eu quero ter paciência.

Costumo ouvir que eu sou boa conselheira. No geral, eu consigo enxergar a vida das pessoas e as situações pelas quais elas passam com facilidade, consigo me colocar no lugar delas e mesmo sentir um pouco do que sentem. Essa troca torna fácil dizer o melhor caminho a seguir e as alternativas que se lhes colocam.

Contudo, quando se trata de mim, a situação se inverte. 

Porque para conseguir fazer o mesmo, eu preciso sair de mim mesma, e me ver de fora. Esse intento, poucos conseguem. Não costumamos considerar as nossas vidas como instrumento de estudo, como objeto, e a partir, ou melhor, fora dela, tomarmos as devidas notas e decidirmos o melhor a ser feito.
Se poucas pessoas conseguem se colocar no lugar do outro, e assim compreender (ou tentar) seus motivos, ajudar sinceramente e analisar pragmaticamente por estar fora e dentro ao mesmo tempo, pouquíssimas conseguem colocar-se fora delas mesmas. 




Cada ser humano tem suas limitações e possibilidades: para cada um, um desafio corresponde. Sim, e alguns deles são meio quebra-cabeças.




Diariamente, situações se apresentam, e suas soluções dependem de como analisaremos os porquês, quandos e ondes. Não considero alguém melhor ou pior, porque cada cor tem sua preciosidade, assim como cada alguém. Somos diferentes, apesar de buscarmos as mesmas coisas, e também o são os caminhos. Parte da construção do valor humanidade compreende entender e fazer-se realidade dessa verdade, e desses processos. 

Um de cada vez, e todos ao mesmo tempo, o destino ideal seria que contribuíssemos em uníssono para a construção desse futuro de desiguais unidos. 

Enquanto ser crente e esperançoso desse futuro, vou fazendo minha parte, entre caminhos descontínuos, oferecendo o meu ponto de vista a quem o pedir, e ansiando por ouvir de outrem aqueles que não consegui imaginar sozinha. Mas ocasiões se apresentam onde eu espero que de fora venha uma orientação a qual não fui capaz de encontrar. 

A resposta nesses momentos se faz vazia, um eco de vozes dispersas e inaudíveis, que voltam para si mesmas sem me alcançar. Sinto que existem, mas rebatem-se entre si. 

Oi? Alo? Tem alguém ouvindo? Não? Help me!!!!!!! hahahaha

Demorei a entender que, da mesma forma que sou capaz de falar aos que podem me ouvir, um dos meus desafios consiste exatamente em saber lidar com o não ouvir, não por incapacidade, mas sim como forma de crescimento de mim mesma. Não escolhi chegar nesse ponto, mas com certeza dei os passos que me trouxeram a ele, o que me torna tão responsável como se o tivesse escolhido.   

Como dado, essa realidade pode me perturbar em alguns momentos. Balançando a cabeça, as pernas, os cabelos, andando de um lado pro outro, e eis que chega o momento em que sento, respiro fundo, abro meus pensamentos, e as respostas surgem. Ainda que subentendidas, enigmáticas, recalcadas..

E com tudo isso, eu entendi que, das virtudes de outrora e outrem, me vejo ansiando pela paciência. 






18 de abr. de 2012

Das cinzas, eis que nasce um sorriso.



Se você considerar a minha idade, 22 anos, muitos diriam que vivi pouco. 
Contudo, para mim, foi o suficiente para vivenciar possibilidades ou ausências, em círculos, indo e vindo, e chegar ao ponto em que eu sentei e pensei: e agora? 
De repente, os meus planos de outrora pareceram sem sentido, as antigas vontades desvirtuaram-se, e o futuro me pareceu aquela página em branco a qual eu não tinha capacidade de ocupar, com um plano sequer. 

Foi a hora em que eu deitei na cama, olhei pra parede cheia de fotos sorridentes e amigos - muitos dos quais perdi o contato, e pensei: o que aconteceu com aquela pessoa de antes, que em muitas situações me parece tão distante, quase outra? Yesterday, dos Beatles, caiu como uma luva.




Considerando a variedade e quantidade de existências, essa sensação pode ser encarada como um ponto de referência  para muitos. Em algum momento, a inexpressão se instalou, e arrancar um sorriso do meu coração parecia tão difícil quanto, em um dia do passado, me pareceu a possibilidade de infelicidade, numa festa qualquer.

Os motivos que nos fazem chegar a esse momento não importam, a sensação que ele traz, sim. E não vou descrevê-la, porque não quero estragar a surpresa de quem nunca sentiu, e muito menos ressuscitá-la em que já a conhece. Mas o que eu quero dizer é que, quando esse momento chega, temos duas opções: a mais óbvia, afundar com ele; a outra, ressurgir dele.

Acredito que nenhum momento pode ser tão propenso a bons frutos do que aquele em que o tudo é nada. Do nada, tudo pode nascer. Meio fênix mesmo, porque não? Então encarei a tal ausência de sorrisos.. 


Fonte: Proyecto Fenix


Aliás, eu sorria.
O que estava ausente era a força interior, aquela energia que movimenta o corpo, head to toe, um banho de dentro pra fora, uma descarga emocional incrível que te faz considerar o impossível uma questão de ponto de vista. Aproveitei pra sentir o efeito dessa falta, conhecê-lo, vivê-lo.
Desagradável, desanimador, decepcionante. 

Sabe, sou daquelas pessoas que não consegue viver sem sorrisos. 

E acredito que não sou a única. Por isso resolvi gritar aos quatro cantos: sim, EU JÁ FUI INFELIZ! E por conhecer a infelicidade, tive mais vontade de buscar o seu antônimo.

Não desejo pra ninguém, por isso vou contar como fugi da minha (sim, fugir mesmo): desapeguei dos grandes, projetos, planos, medos, regras, tudo.

Descobri que o grande é algo que já foi construído, por outro alguém, que não eu. Com isso, pude focar nos pequenos.. sonhos, horas, detalhes, amigos, prazeres, com os quais serei capaz de construir minha própria (também grande) história. 
Pedaço por pedaço, com calma, utilizando os projetos alheios como fonte de informação, inspiração, para matar a curiosidade. 

Mas, ao olhar pro meu, lembrando sempre que, original ou não, o que importa na minha construção é que seja fruto das minhas escolhas. 

E a principal delas é nunca mais deixar de (e ter vontade de) sorrir.


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