30 de dez de 2008

Tudo que vem fácil, vai fácil.

"Você realmente achou que eu dependia de você, né? Ou pelo menos, que a partir do dia que eu conheci você, nada mais importava. Engraçado, eu também pensei isso. Que postura precipitada a minha.. você era o complemento. E eu fiz de você o ator principal. Era o que você queria, não era? Mas aí, depois que você fez sua apresentação, se levantou e foi embora. AH, mas agora eu já entendi.. A única atriz principal desse drama sou eu, e, se você quiser atuar junto comigo, vai ter que passar por uma bateria de testes, pra quem sabe numa hora dessas eu achar que você merece uma chance. Uns poucos minutos de protagonista. Tudo por merecimento, é claro. E podia ser diferente?"

Beatrice Cartiller

23 de dez de 2008

Incomuns

(Texto Antigo) Hoje eu quero falar sobre ser diferente. Usando-se de um ditado popular, coisa que eu adoro, cito: de perto, ninguém é normal. Até porque a definição de normalidade é constantemente colocada em questão. Pra mim, é relativa demais pra ser condensada em uma só. Um dos problemas de hoje em dia, conseqüência direta da “burguesalidade”¹ social, é a ditadura. Engraçado que por mais que se insista em superar uma situação, ela volta, caso não tenha sido superada de verdade. Por isso retomo o vocábulo ditadura, que de certo traz à tona a lembrança, em primeiro lugar, da figura autoritária e “solene” de Hitler. “O conservadorismo foi superado”, afirma a democracia, de forma que as relações sociais – de todos os tipos – que presenciamos são todas libertadas e libertadoras. Essa passividade-atividade de um tipo de governo me parece extremamente utópica, e na prática é ainda mais do que isso.
Os sonhadores dizem que vivemos num mundo livre. Os pessimistas que o mundo nunca esteve pior. Eu acrescento que o número de problemas é maior do que as soluções. Ou seja, por mais que concorde com ambos, a balança cai mais pra um lado só. Um professor meu sempre me dizia que eu tinha as respostas, o problema era fazer as perguntas certas. Acredito compartilharmos esse defeito, como homens, com o mundo. De forma que há uma transferência recíproca de respostas mas quase nenhum tempo é gasto com as perguntas. Contraditório. A pesquisa tem como maior base a busca por respostas, e parte de uma hipótese, uma pergunta. Se pudermos considerar a atividade científica como um tipo de “arte”, no sentido de ser uma atividade exercida por pessoas que apreciam fazê-la, a frase “a vida imita a arte” não cabe muito bem pra situação. E, se as perguntas são raras, dentre elas, incluir o questionamento quanto à diferença parece ter entrado em extinção.
Uma busca sem tamanho pela homogeneidade. Há, de fato, uma democratização das idéias. Tornam-se populares, porém, concepções e padrões que nada têm de igualitários. As idéias estão se perdendo nas páginas dos dicionários: ser e ter são dois verbos, e não um só, fundido. Fica a dúvida: como reclamar, utilizando-se de termos gramaticais, com o índice anormalmente alto de analfabetização escancarado, pra quem quiser ver? Quantos irão entender? Pior, quantos querem entender?
A diferença é enriquecedora. Destruí-la e substituí-la por uma camada uniforme é ousado, inconseqüente e imprudente. O que precisa realmente de substituição é o modo como as perguntas vêm sendo feitas, e talvez encontre-se um meio de recuperar o tempo perdido.
¹. Pode-se entender esse termo em substituição a globalização, acrescentando-se certa pejoratividade e credulidade quanto à sua real função e utilidade no mundo, em especial, no lado ocidental.

19 de dez de 2008

O desconhecido também é alguém.

Na minha inocência quase juvenil, eu acreditei em você. Acreditei que você pudesse ser diferente. Mas, quantas vezes isso já não me passou pela cabeça? Quantas vezes eu já não quis acreditar? Apesar de que, devido à minha racionalidade extremada, eu não me permitia ir mais longe do que alguns passos. Poucas vezes me permiti caminhar livremente nesse terreno incerto, escuro e medonho. E, quando isso acontecia, eu levava comigo minha lanterna.. uma migalha de luz em um deserto, como se os seres que ali habitavam pudessem, ao mínimo, assustar-se com ela em ocasião de ataque. Que prepotência! Nas poucas vezes que a coragem não me faltou, eu não fui forte o suficiente para resistir ao impulso de sair correndo. Uma única vez, permaneci por lá por um tempo que considero hoje o meu recorde. Sem medo, sem receios, sentei e respirei, ainda que através de um ar rarefeito, o ar que me rodeava. Mas um dia o ar me faltou. E, apesar do susto, eu vi que já era em tempo de abrir os olhos e ver quantas criaturas perigosas me rondavam. O motivo que eu tinha pra permanecer ali, em meio ao desconhecido, já não me era tão claro. E assim, mais uma vez, eu fugi. Ultimamente, não tinha sentido vontade de entrar lá mais uma vez. A última lembrança ainda assola meus pensamentos e me consome. Ou consumia. Aos poucos ela está se apagando.. Mas, por motivos outros além desse, a intenção era permanecer longe até eu me sentir preparada para mais uma vez entrar. Eu saberia a hora de entrar de novo.. Só que eu achei que esse desejo de conhecer os segredos que me aguardam lá dentro, achei que ele fosse demorar pra voltar. Mas não demoraram tanto quanto eu imaginava. Veio uma corrente de ar, densa e úmida, carregando consigo um vento forte que me empurrou na direção que tantas vezes eu fugi. E, não sei porque, eu imaginei que talvez dessa vez o ar não me faltasse. Que a corrente fosse uma ação da natureza, do cosmos, ao meu favor. Que ela ficaria ali até eu me acostumar com sua presença, e aos poucos, com a sua ausência.. E senti vontade, uma vontade mais forte do que todas as outras que eu já havia sentido, de penetrar esse lugar tão tenebroso pra mim, e, acredite, até de ficar por lá! Porque era ela tão intensa? Porque agora já não era um sentimento desconhecido pra mim. Eu, pelo menos, havia tido tempo de interpretá-lo e compreendê-lo. E saber o significado desse desejo, isso aumentava a sua força e a sua intensidade. Imagine como eu me senti. Praticamente, fui empurrada, mas não contra a minha vontade. Eu queria! E fui. Comecei, passo a passo, respiração ofegante. Medo, ansiedade, ansiedade. Meus pés estavam quase pisando o primeiro trecho de uma longa caminhada, quando de repente veio um sol forte. Tão forte que eu pensei que talvez fosse invenção do meu pensamento. Não podia existir luz tão preponderante num lugar caracterizado pela sua ausência. Num lugar onde a sua ausência é a fonte de toda a biodiversidade e do ecossistema presentes.. O que havia acontecido? Meus olhos não puderam enxergar. Foi preciso mais do que uma fração de segundos pra me acostumar com a luz. E, tão rápido quanto ela surgiu, ela desapareceu. Agora meus olhos precisaram de um tempo ainda maior pra permitir a mim que interpretasse o que via. E o que eu vi me fez cair de joelhos no chão. A distância entre mim e essa densa cadeia de mistérios havia sido multiplicada centenas de vezes. Quantos passos seriam necessários para que eu chegasse, novamente, à sua entrada? Foi preciso um tempo para que eu entendesse, aceitasse. Aceitar, na verdade, demorou um pouco. Porque, quando eu mais quis adentrar todo esse conjunto de possibilidades desconhecidas, o chão me escapou? Eu entendi, então, algo que tinha deixado escapar das outras vezes, porque nunca tinha ido tão longe, de uma forma tão consciente: não é somente o meu desejo que me permitirá sentir-me em casa quando em ocasião de estar lá dentro. Eu preciso ser convidada, como quando se recebe amigos em sua casa. Agora, estou longe, rodeando aquilo que eu pensei ser o lugar dos meus desejos. E muito, muito mais assustada. Porque eu me dei conta que sempre, sempre, aquilo que eu considerei ser um lugar inanimado e inerte, não o é. Ele se mostrou um algo tão capaz de vontades e sentimentos quanto eu. Será que um dia poderemos respirar juntos?

16 de dez de 2008

Relatos.

Hoje eu não vim escrever nada em especial. Vim só indicar um filme que eu acabei de assistir..
Duelo de Titãs. Na categoria lição de vida, uma história maravilhosa. Tudo se passa no início da década de 70.. um time de futebol americano, e um estado dos EUA (me fugiu o nome) tentando integrar negros e brancos. Que, naquela época e ainda hoje, vivenciam um preconceito completamente absurdo. Não que eu não entenda, porque, no contexto americano, desde as épocas de escravidão, que os negros são considerados uma raça inferior. E mesmo quando a Guerra de Secessão acabou com o que parecia ser o problema, as coisas não mudaram. Negros sofrem e sofreram preconceito durante toda a história dos Estados Unidos. De uma forma que, acho, eu nunca presenciei aqui no Brasil. Graças a Deus. Não que não haja, mas, eu não entendo os motivos! Além dos históricos, nada fundamenta esse comportamento. Para mim, a mudança, DETALHE, a mudança real é SOMENTE na quantidade de MELANÓCITOS. Tão diferente quanto uma pessoa que tem nariz grande de uma com o nariz pequeno. É o que eu penso. Ou de uma pessoa alta para uma mais baixa. Ou seja, diferenças simplesmente anatômicas. Que mostram as origens de cada um, mas nunca, nunca, limitam o que alguém pode vir a ser. As possibilidades do "tornar-se" são múltiplas, não importa a cor, o credo, a origem ou o que quer que seja. A capacidade é igual pra todo mundo! O que muda, ah, e isso realmente muda, são as oportunidades.. ainda me irrito com isso. E dizem para mim que eu preciso me acostumar! Mas que nada!! Não vou me acostumar com o que é errado, só porque todos fazem! Como diria Nando Reis: "Eu não vou me adaptar..". Porque eu não quero. E talvez, quando um número suficiente de pessoas concordar comigo e começar a agir diferente, as oportunidades se multipliquem. As sementes já começaram a brotar, e eu respiro aliviada por esse começo, ainda que pequeno. Mas as grandes árvores não se sustentam sem uma boa raiz.. e isso ainda nos falta.

10 de dez de 2008

Procure, pode estar no porão.

Às vezes tudo o que falta em um casal é o coração. Contraditório, não? Ah, uma coisa é você, como convidado, hospedar-se numa casa por uma semana, ser muito bem tratado pelos anfitriões e depois ir embora. Outra bem diferente é conviver com os mesmos por um mês, e ainda querer voltar nas próximas primaveras. O que isso tem a ver? Muitos casais nem se conhecem. Conhecem-se o suficiente para que o “amor” seja estável. Para quê (e importa?) mostrar tudo? Que se usem as máscaras! Não é para isso que são criadas? As máscaras foram criadas devido ao nosso medo. Porque o nosso coração fica lá no porão, escondido, palpitando e suando frio, com medo que o convidado, curioso, ouse atravessar as portas do permitido, e adentre a aparente escuridão do que vem além. As máscaras são as festas e tudo aquilo que pode ser ostentado, comprado, fingido, imitado. E o coração? Coitado, divide espaço com as caixas fechadas, as fotos borradas, as cartas rasgadas, o convite rejeitado. É assim a maioria das casas hoje. Não tem lugar pro desequilibrado. Tudo precisa ser planejado, organizado, medido, precisamente medido. Que ilusão! É exatamente isso que traz a necessidade de os móveis serem sempre trocados, das paredes serem repintadas, de novas flores serem plantadas. E de se comprar novas casas, ter-se novos filhos. Tudo pela covardia de não acender a luz do porão e ir ter uma conversa com alguém que poderia ensinar mais, muito mais, do que tudo aquilo que pode ser traduzido em cifras. Pergunte-me como, se ele está receoso, temeroso, aparentemente nervoso? Quem quer que seja, por mais especial que seja, acreditar-se-á um inválido se assim escutar durante toda uma vida. E o que dizem à ele? Senão que ele só traz problemas, prejuízo, sofrimento? Mas é claro! Não lhe dão tempo o suficiente! Para quê perder tempo num lugar escuro, poeirento, fedido, com alguém a quem não damos crédito? Vai-se lá somente o necessário. E escuta-se somente aquilo que é conveniente. Depois de ter ouvido tudo o que se quer, deixa-o lá. E vai-se às compras. De amigos, de valores, de oportunidades, de amores, de sorrisos. Porque tudo que não possa ser conquistado, é comprado. E aí? Perde-se o controle! O culpado é ele! Deu os conselhos errados! Ensinou o caminho mais difícil! Inútil! Ficará sem receber visitas, sem energia! Como se ele tivesse. A única luz que ele recebe, e, acredite, lhe é suficiente, é aquela que nasce e se põe todos os dias. Mas porque insistem em ir visitá-lo, por mais que demorem a fazê-lo? Ah, mas que falsa coragem! Que falsa coragem a de acusar, acusar, e depois ir procurar o acusado! Eu preciso responder? Pense! Precisa-se dele! Porque ele sabe coisas que não sabemos, que não estão à venda. Mas, como ele irá dizer-nos, se nunca temos tempo para escutar? “É preciso ter recursos! Ainda tem a feira a fazer, a massagem, o almoço.” E o convidado? Em um mês, fica perdido. Para onde foi a hospitalidade? Em que momento acabaram as prazerosas conversas daquela primeira semana? Para quê tantos compromissos? E a paz de um vinho, com as pernas esticadas? Era mentira? O que ele deve pensar? E a cozinha, que ele não tinha visitado, e não lhe agrada? Além dos quartos, confortáveis, limpos, arejados, o que mais? A lareira? Os móveis fofos? O sofá macio? O abajur? Ele precisa refletir, respirar, dar uma volta. Andar pelos cômodos. De repente, se depara com uma porta que não tinha notado. Não estava pintada. Era apenas conservada, nem de longe tão bem cuidada quanto o resto da casa. E entra.. Ali, seus olhos não conseguem enxergar. Espera, escuta uma respiração arquejante, pode ouvir o som da apreensão. Será ele? Quem está ali? Os olhos acostumam-se. Pode ver um contorno escuro em um canto. Parece suado, sujo, triste. Mas sorri. Dá pra sentir seu sorriso.. uma onda de calor percorre-lhe o corpo. Mas que sensação boa. Porque nunca tinha vindo aqui antes? Decerto, não é um lugar dos mais atraentes. Ainda assim, aquela figura, recostada na parede, lhe desperta atenção. Porque mantém-na aqui? Aproxima-se. Um passo. Pára, espera um sinal de aprovação. Nada. Continua.. mais um passo. E outro. Começa a delinear a sua forma. E vê um banquinho à sua frente. Parece ter sido limpo. Não está empoeirado. Estava ali quando ele chegou? Tem medo de olhar pra cima. Um, dois. Tropeça em alguma coisa. Olha pra cima. Os olhos daquela figura lhe sorriem ainda mais do que seus lábios. E o banquinho lhe é apontado. Para eu sentar? A cabeça balança afirmativa. E senta, tenso, mas curioso, ansioso. O que aquela misteriosa pessoa tem a lhe dizer? Entreolham-se. Por minutos, sem se dizer nada. Apenas sentindo o que aquela presença, sincera, lhes faz sentir. Sentindo e resistindo ao ímpeto de falar. Tendo paciência para esperar a hora certa, porque eles vão saber. “Esperei por você por muito tempo”, a figura fala. Eu? Mas você não sabe quem eu sou. “Você veio até mim. Procurou por mim”. Bem, não é bem verdade, mas.. “O quê? Não está curioso para saber quem eu sou?”. Muito. Quero saber tudo sobre você. “Pois eu começo lhe dizendo que contarei tudo. Mas antes preciso que você me diga uma coisa”. O quê? Qualquer coisa. “Você continuará me procurando?” Depende. Você será sincera? “Da forma mais pura que se pode ser”. Então eu continuarei. Prometo. “Mesmo que nem tudo o que eu lhe diga seja aquilo que espera ouvir?” E porque há de ser? “Não sei, mas muitos que aqui vieram o esperaram. Mas eu sinto que você é diferente dos outros que eu conheci”. Não devo exigir que você seja aquilo que eu desejo. “E o que você deseja que eu seja, então?” Desejo que você sorria. E me diga aquilo que nunca disse a ninguém. “Porque?” Porque olhar pra você me dá vontade de permanecer aqui, sentado, escutando tudo o que tem a dizer. Tenho todo o tempo do mundo. “Ah, porque você demorou tanto?”. Eu não sabia. “O quê? Não sabia de mim?” Só o que os outros me disseram. “E isso não lhe basta?” Não. “Porquê?” Porque você está aqui, quando você merecia estar num lindo jardim, respirando o perfume das flores, sentindo o vento bater no seu rosto e o sol queimar seu corpo.. “Finalmente.”

Pensar.

Começarei citando um clichê: relacionamento é uma coisa complicada. Disso, eu sei que ninguém tem dúvidas. Inclusive eu, insisto em dizer, na minha pouca experiência, tenho conhecimento o suficiente para afirmar tal coisa.
Uma das coisas que me surpreende no meio das conversas diárias, semanais, mensais e anuais que eu tenho com tantas pessoas, é a atitude de muitas delas de me olhar e dizer: “Eu nunca tinha pensado nisso”. Mas, como, não tinha pensado? Pensar é uma quase obrigação do homem! Porque? Ah, se você ousasse, há algumas décadas, perguntar tal coisa, seria punido somente pelo ato de tê-lo feito. E ainda ousam perguntar hoje porque devemos pensar. Parece-me muito claro. Pessoas morreram e abdicaram de suas vidas pessoais em nome da afirmação desse nosso direito. Do “livre-pensar”. Não quero entrar aqui nos méritos de ser esse direito um pseudo, porque, mesmo o sendo, ainda é um fato tão concreto como se não o fosse.
Ouso, pois, dizer que um dos motivos para tantos relacionamentos problemáticos e tantos casos infelizes, é essa insistência humana na fuga. Na fuga de enfrentar-se, de perguntar, de duvidar, de não conformar-se. O comodismo das relações, isso me entristece. Porque as pessoas vivem dizendo-se infelizes, incompreendidas, mas muitas nem compreendem a si mesmas! Como um alguém, que não você, pode comprender aquilo que lhe escapa? É como exigir que se aprecie uma obra de arte, quando ali existe somente a argila. A compreensão, a serenidade, são valores que são adquiridos, assim como as formas de uma escultura, pelo esforço constante e sincero do artista. E nesse caso, quem pode ser o artista, senão você? O que seria o livre-arbítrio, senão essa possibilidade de livre escolha?

8 de dez de 2008

(..)

"Já fui decantada, fervida, filtrada e destilada. Já fui reciclada depois de usada, usada e guardada, já fui no lixo e voltei mais limpa do que quando fui.Já escolhi, fui escolhida, descartei e fui descartada, e já passei despercebida.Já fui e fiquei, algumas vezes não fui, em outras não quis voltar, mas voltei. Já fui pintada, de tinta colorida e de verniz. Já fui plástico, vidro, madeira e sabão. Já lavei minha mão, deixei algumas mãos sujas, já me sujei e ajudei a limpar algumas sujeiras.Já fiz sorrir, chorar, gritar e lamentar. Já deixei saudades, mágoas, esquecimentos e indiferença. Carreguei comigo lembranças, joguei pela janela, corri pra buscar depois. Algumas eu esqueci em algum lugar e não faço questão de achar.Lamentei, caí, me arranhei.Me arranhei tanto que precisei ficar na UTI. Na minha UTI. Fiquei só, acompanhada, acompanhada e só, só e acompanhada.Tive sorte de principiante, ou ela fugiu de mim. Aprendi rápido, ou devagar demais. Distrubui esperanças e sorrisos. Colhi desprezos, mas também colhi amigos. Semeei amor, carinho, mas eles não sobreviveram. Eu plantei de novo, e planto o quanto precisar.Me importei, fui indiferente.Sorri de prazer e de desprezo.Fui irônica, metaforizei. Engoli em seco, botei pra fora. Gritei de medo e de emoção.Chorei, chorei. Depois, fiquei mais bonita. Me achei feia, me achei linda, me amei, me odiei. Continuo viva. Me importei, não me importo mais.Fui várias coisas, hoje sou um pouco de tudo o que fui. E sou feliz, triste, doida, normal, feia, bonita, preta, branca, responsável, ociosa, viciada em filmes, sonhadora. E a cada dia sou um pouco mais disso ou daquilo. Enquanto as coisas caminharem, olho pro céu, sinto o vento nos meus cabelos, e agradeço a Deus..Aliás, meu nome é Camilla Borges."
10.10.2008

4 de dez de 2008

Para um alguém.

“Você me inquieta. E até me aterroriza. Não que isso seja ruim.. depende do ponto de vista. Eu fico inquieta porque não posso saber onde você está, como você está - pelo menos não sempre que eu tenho vontade. Porque eu ainda não sei a sua comida favorita, a música que te faz chorar, seu maior sonho. Tampouco sei seu maior medo. Não sei no que consiste a sua felicidade.. e nem se eu posso fazer parte dela. Eu penso no jeito que você dorme, se você ronca ou se respira baixinho. Eu tento imaginar você irritado. Será que eu conseguiria te acalmar? Eu penso nos seus pais, e tenho vontade de conhecê-los. Para entender exatamente de onde veio esse sorriso, esse “você” que me deixa rolando na cama. Crio situações na cabeça, eu posso, né? Mas preferiria vê-las acontecendo. E até ver o que eu não ousei criar. E se a gente brigasse, você me mandaria uma mensagem pedindo desculpas no mesmo dia? Ou você ia me deixar dormir chorando? Eu não deixaria você assim. Ah, mas se depois de cada briga, a gente passasse uma noite deitados bem abraçadinhos, eu ia inventar um motivo pra brigar.. e depois ia beijar você e te fazer cafuné, olhando pros seus olhos e vendo o carinho com que eles me olham. Me inquieto porque minhas mãos coçam! Elas me pedem seus cabelos pra acariciar, suas mãos pra entrelaçá-las. O que eu digo a elas? Meus lábios estão secos. Não adianta: nem água, nem a minha saliva. Eles querem a sua boca. Minhas pernas.. não param de balançar: querem ir ao seu encontro. O que você me diria se eu confessasse essa necessidade de você? Você diria que é dependência, carência minha? Ou abriria os braços e me apertaria entre os seus? Não é carência! Porque só você serve. Desde a primeira vez que meus olhos bateram em você.. e eu precisei saber seu nome. Seu sobrenome. Suas histórias de infância. Suas lembranças da escola. Quis conhecer seus amigos, ver suas fotos, quis entender o que era importante pra você. Quis SER importante pra você. E quis tudo ao mesmo tempo! As vontades vieram como uma chuva forte. E minha roupa continua molhada. Não. Eu não sinto frio! E é isso que me aterroriza. Meus sentidos.. Eles pedem.. eles chamam.. Mais chuva! Mais água! Mais gotas de orvalho molhando minha pele, escorrendo pelo meu corpo.. Evaporando, saindo pelos meus poros. Mais, mais.”

Beatrice Cartiller

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