16 de out de 2010

Sobre o controle e o silêncio

As pessoas que costumam ler o que eu escrevo, acham que eu sempre sei do que estou falando. Decepcionantemente, digo que não. As palavras têm um poder que vai além do meu. Saem através das minhas mãos e trilham caminhos que eu desconheço. Falam por si mesmas, a quem quiser ouvi-las. E sempre falam alguma coisa diferente, a depender de quem escuta..
Acho que é isso que torna a leitura, e a escrita, tão especiais. Primeiro, porque quem escreve nem sempre escolhe sobre o que falar, e como falar. Segundo, porque quem lê nem sempre escolhe o que gosta de ler e o que sente quando o faz.
Eu gosto de leituras que me transportem. Me desafiaem. Me façam sentir. E eu sinto coisas.. sensações, sem nome. Um vento frio na espinha. Uma ideia fixa de conhecer os personagens. De estar entre eles. Uma identificação. Um sonho compartilhado. Um sentimento calado que grita através do livro. Uma admiração.
Hoje a minha sensação vem de uma frase. "Há uma grande diferença entre estar quieto e não fazer nada." A nossa vida e nossa sociedade estão tão acostumados a fazer muita coisa sempre, que a atitude de não fazer nada é vista como preguiçosa, ociosa. De certa forma, eu sempre me senti deslocada desse comportamento. E sei que vou continuar me sentindo assim. Porque a quietude, pra mim, fala. Fala mais do que uma lista completa de músicas do meu cantor preferido. Eu não tenho cantor preferido. Eu tenho sensações preferidas, momentos preferidos, e tenho músicas que intensificam esse ou aquele sentimento, que trazem alguma lembrança. Que me transportam, me incomodam, me machucam, me acalmam. Mas o meu silêncio e a minha quietude, são meus. Nem música, nem pessoas, nem sons, nem qualquer fator externo. Vem de mim e canta nos meus ouvidos, só eu consigo escutar.
Nem todo ócio é improdutivo. Sabe aquelas pessoas que ficam agoniadas quando não estão fazendo alguma coisa? Você não é sempre assim, às vezes você fica assim por algum motivo. Eu já estive assim. Mas preste atenção. Sempre tem alguma coisa que nos incomoda tanto, que é melhor fazer algo para que esse incômodo não venha ainda maior. Porque no silêncio, qualquer barulho amplifica-se. Do alentador ao inquietante. Todos são potencialmente ensurdecedores..
E controlar-se, a si e as reações que se tem, é desafiador. Eu acredito que um dos maiores medos do homem é exatamente assumir que não tem o controle. E por isso busca-se o tempo todo situações em que esse controle esteja sob sua tutela, sob a tutela humana. Mas as mais valiosas virtudes só podem ser alcançadas enfrentando-se o medo, e perdendo-se o controle. Pro bem ou pro mal, a perca do controle traz uma fase e um nível de introspecção que não existiriam de outra forma. A natureza é incontrolável. O amor é incontrolável. A dor é incontrolável. Tudo que realmente é grande, forte, independente da sua beleza, é incontrolável. A contestação do belo é tão relativa que não deve ser discutida. Apenas respeitada. Mas o controle, a atenção que se dá, ou melhor, a desatenção, disso eu posso falar.
Porque o meu silêncio é um exercício constante de controle. Controle do que eu sinto, do que eu falo, mesmo calada, e do que meu corpo quer falar. Todo nosso corpo e nossas sensações precisam ser controladas. Toda ausência de atitude pode ter um significado. E o nada é apenas um deles. Em alguns momentos, o nada é bem-vindo. Porque ele traz a sensação de estar numa praia deserta, sem vento. Com um mar sem ondas. Sozinho. Sem interferências. E esse universo paralelo é onde eu posso me ver.. pelo reflexo do mar. Onde podemos nos ver..
Mas na maior parte do tempo, os outros significados.. são.. seus, meus. Não preciso lhe dizer o que significam pra mim. Nem preciso saber o que significam pra você. É suficiente que saibamos que, todos, temos. Segredos, silêncios, medos, guardados. A liberdade de fazê-lo. A chance de conhecê-los..

Um comentário:

  1. O primeiro parágrafo é exatamente como eu penso. O que eu escrevo flui, vai além do que eu quero, além do que eu podia imaginar que iria escrever...
    "Porque no silêncio, qualquer barulho amplifica-se" - é isso que eu sempre achei. O silêncio é demasiado barulhento. Ninguém suporta um barulho assim.

    Você escreve tão bem e posta tão pouco. Deveria escrever um pouco mais.
    ;*

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