26 de ago de 2011

Sessão Contos


Escrevi esse conto com uma finalidade, mas acabei deixando passar a mesma. Mesmo assim, resolvi compartilhar, inaugurando a sessão contos aqui no blog.
Como ele é grande, vou fazê-lo em partes..



Saudosidades - Parte 1
Era uma manhã clara, sem vento, e o sol estava forte. Levantei preguiçosa, abri a porta do quarto e fui olhar o mar. Sorri pensando no dia anterior, quando tinha ido à praia com minha família pela última vez naquelas férias. Adorava o verão, principalmente nas férias de janeiro. 
"Todo ano íamos para a casa de praia, e eu me perdia nos dias ensolarados, tomando banho de mar e ficando com aquele cheiro salgado, que me agoniava, e me fazia ter vontade de um banho no chuveiro. O cheiro do protetor solar, as brincadeiras na areia com meus coleguinhas da escola, os dias em que eu era uma pirata ou uma princesa. Os dias em que eu corria desesperada, com medo que meu colega me alcançasse e dissesse: te peguei! Odiava brincar de esconde esconde e pega pega. Morria de medo de ser pega e ficava tão ansiosa que preferia ser a pessoa que ia procurar pelos outros, a me esconder. A tensão era enorme, a agonia de ser descoberta e perder toda a graça.
Lembro dos dias em que ia com minha mãe na minha barraca de praia favorita, era pequena, comparo hoje ao tamanho de um contêiner, e toda amarela. Tinha o nome pintado de tinta marrom, e ficava numa esquina onde a rua encontrava a praia,
uma das ruas sem saída da praia da minha infância. 
Sorria pensando no peixe frito que eu comia todas as vezes que ia nesse lugar,e sabendo também que as ondas do mar estariam ali, me esperando. Ficava a poucos metros da minha casa, podíamos ir andando. Porque as ondas perto da minha casa eram muito fortes e o mar era muito perigoso para uma menina tão pequena como eu, e por isso minha mãe inventou o peixe frito na barraca mais na frente. O mar por lá era mais calmo e eu podia brincar de flutuar nas ondas, com minhas amigas de prédio, que sempre iam comigo. Ou então com minha mãe, ou com meus tios..
Meu pai nunca ia pra praia, não podia tomar sol. Ficava em casa esperando a gente voltar, tomando uma pinga com os amigos, fazendo aquele churrasco cheiroso, ou então comendo caranguejo. Eu adorava comer caranguejo, especialmente porque eu nunca precisava ter todo o trabalho de quebrar as patinhas, meus pais faziam isso por mim,e me davam o melhor pedaço, aquela pata grande, super gostosa, que eu comia numa dentada e saía toda feliz, correndo e pulando pela casa pra brincar de novo."
Sorriu ao terminar de escrever essas lembranças, tão frescas que se apresentaram, mesmo que houvessem sido há tanto tempo. Estava acordando quando olhou pro ceu e lembrou daquele último dia de férias, há alguns verões atrás.
Duas décadas, para ser exata. Levantou e foi tomar café.
"O café estava amargo quando dei o primeiro gole. Peguei o adoçante e pus mais algumas gotas, enquanto eles falavam sobre os planos de futuro de cada um. Estava sentada com alguns de meus amigos, na casa de um deles, em uma daquelas noites do fim de semana que ninguém quer sair, ninguém quer festa, mas todo mundo quer companhia. Não nos víamos como antes, quando éramos todos do mesmo colégio, e agora as reuniões eram escassas, quase ausentes. Compartilháramos sonhos e sufocos, momentos de angústia, estudamos juntos por muitas madrugadas, e todas essas estórias que ficam intocadas eram sempre lembradas, de uma forma ou de outra. Fiquei sentada tomando meu café paulatinamente, observando e escutando quando dizíamos quais os nossos maiores medos e desejos, agora jovens adultos. As risadas eram tão coordenadas, e a cumplicidade
tão ritmada, que esquecemos do que estava ao nosso redor. Voltamos ao tempo quando já era manhã, e o sol entrava pela janela."
Estava acordada há uma hora e não conseguia parar de lembrar, ao acaso. Sabia que isso iria acontecer, conhecia a si mesma, essa nostalgia saudosa era inevitável diante das circunstâncias.
Havia contudo esquecido quando tinha sido a última vez que tinha dado vazão a seus pensamentos, para que corressem descompassados e desordenados, fossem a lugares não programados, trouxessem à tona medos e saudades de que não lembrava ou ousava recordar.
Deixou a ideia da ausência percorrer seu corpo, respirou fundo e decidiu que hoje não pensaria em pensar. Seguiu em direção à varanda, olhando para o chão de madeira, sentindo-se acanhada diante do porvir..




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