26 de out de 2012

Se não tem luz, não tem história?


Desde pequena, eu não podia dormir de cabelo molhado. Era certo que ia acordar com a garganta ruim. Virou hábito nunca dormir sem tirar toda água dele.

Ontem teria sido uma noite comum, se não tivesse faltado luz quando eu tava embaixo do chuveiro. A minha reação foi pensar em como essa nova realidade ia me afetar, e agradeci a mim mesma pela prudência de ter velas guardadas na gaveta. Aí, lembrei do cabelo. Não tinha solução, eu ia ter que esperar que ele secasse naturalmente (o que, no meu caso, demora cerca de duas horas).

Eu teria ficado tranquila, se eu fosse passar essas duas horas fora de casa, numa tarde de sábado qualquer, conversando com alguém, sem hora pra acordar (cedo) no outro dia. Principalmente, se fosse num momento em que o sol ainda estivesse presente. 
Mas, não me agradei quando percebi que iria passar essas duas horas sozinha, no escuro (no meu prédio, não tem gerador. Meu celular descarrega rápido, e eu precisaria dele pra me acordar de manhã. Meu computador tem a bateria viciada. E eu não tenho Ipad).


Eis que eu parei e pensei: e agora?

E então, meus caros, foi quando eu refleti seriamente, e pela primeira vez na minha humilde existência, sobre como nos tornamos dependentes da luz. Leia-se, da energia: desde que o ciclo do dia passou a ter 24 horas, e não apenas as 12 horas de luz solar de outrora. Subitamente, as crises do Petróleo e a invasão do Iraque tornaram-se compreensíveis pra mim em outro nível. Eu acho que até comecei a tirar meu chapéu pro pensamento estratégico de longo prazo dos norte-americanos. Como a nossa sociedade reagiria a um retrocesso evolutivo como esse? Um parêntese: aqui me refiro àqueles que tem acesso à energia, porque existe ainda grande parcela de seres humanos que desconhecem o significado de uma tomada.

Aqui, o tempo parou.
Voltar aos tempos de velas, papel e caneta, banho frio, calor sem ar condicionado e frio sem aquecedor (final do século XIX e início do século XX)? Quantos livros deixariam de ter sido escritos sem um computador, quantas amizades não teriam sido feitas, quantos problemas permaneceriam sem solução? 

Quão dependentes nos tornamos, afinal?

Eu não posso responder por todos, mas tenho certeza de que não fui a única a me sentir meio perdida. Cheguei até a sentir uma momentânea perda de identidade. O que, de fato, parece exagero. Mas, se para mim a duração desse momentum foi curta, para outros pode ter se prolongado. O que me fez “voltar a mim” foi a vontade de falar sobre isso. E, com a minha vela grudada no pires (este, de cabeça pra baixo), peguei meu caderninho e comecei a escrever. Não estava escrevendo nenhum Rosa do Povo, mas me senti próxima de uma artista literata, como o computador nunca tinha me feito sentir.

A vela, e meu caderninho.

Refleti sobre as outras pessoas, em suas casas, e me perguntei quantas delas tinham velas.
(Claro, muitos tem gerador. Mas mesmo o gerador não consegue suprir todas as necessidades, de todo mundo.)

Tinha uma noção da grandiosidade da queda de energia, porque uma amiga que morava em outro bairro havia me mandado uma mensagem: faltou luz? Mas só entendi realmente a dimensão do apagão quando acordei, e vi no celular a resposta de outro amigo, de outra cidade vizinha: faltou luz aqui também. Liguei a TV pra ouvir a notícia que o evento ocorrera em grande extensão do Nordeste, e em outras regiões, pontualmente. Se eu pudesse, passaria a manhã de hoje perguntando às pessoas como se sentiram, como reagiram, o que acabaram por fazer. Uma curiosidade imensa me tomou (e ainda toma).

Drummond quando moço.



Quanto à mim, a verdade é que me percebi gostando de ser meio século passado. A sensação de desligamento com o mundo (ainda que parcial, por causa do telefone), o silêncio redobrado apesar da hora..







Era uma vez um tempo onde..
Ainda assim, não posso deixar de pensar e me preocupar quanto aos outros. Porque, se ainda estamos em contato direto com uma geração que viveu sem essas tecnologias que temos hoje, e que reiteradamente demonstra que o que há de mais valor não se resume a um fluxo de partículas eletrizadas– nossos avós - em breve, seremos nós os que terão netos. E definitivamente não somos uma geração que possui, a priori, essa tranquilidade no viver e essa autonomia no agir.


E então, quantos terão herdado, serão capazes e estarão dispostos a repassar aquela simplicidade de viver que vemos em nossos idosos?  Porque, na ausência de luz, foi a minha humanidade que me resgatou. E meus livros de cabeceira. Contudo, como não me cabe o poder de mudar aos outros, tomei uma decisão firme: o primeiro grande investimento da minha vida será num painel de luz solar. E meus filhos definitivamente vão passar a semana sem internet.

Deixou de ser "frescura sustentável" pra virar uma necessidade urgente.



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