15 de jun de 2009

Café preto, puro. Com ou sem açúcar?

Decidi vim falar do café. Ou pelo menos começar falando dele. Faz um pouco mais de uma semana que eu não tomo café, quer dizer, até hoje. Hoje tomei um gole, mas não decentemente. A dor que eu sentia voltou, e eu parei. Dor física, mesmo. Daquelas com direito a remédio pra melhorar..
Mas agora estou melhor. E resolvi lembrar um pouco do que a companhia dessa bebida preta me recorda.
Principalmente, de muitas noites, sozinha, sentada, estudando, lendo livros e mais livros. Porque a maior parte da minha curta vida foi passada na escola, e como eu sempre tive pais exigentes, estudava. Até adquirir um gosto por isso.
Mas também tiveram as noites que eu passei, sozinha, lendo, só que dessa vez, romances. Cheguei à conclusão que pra mim, café é concentração. Me acalma, tira a ansiedade, me faz sentar, respirar e focar no que está na minha frente. Ou então me dá forças pra um dia longo e cansativo, que eu sei que vem pela frente..
Lembro um dia em que eu tinha passado a manhã e a tarde dançando pra uma apresentação, que era à noite. E cheguei em casa, só pra tomar um banho quente e rápido, antes de voltar pra lá. E tomei uma xícara de café, e outra. E minhas forças, pelo menos as que ainda eram possíveis de retornar ao meu corpo, vieram com tudo. Foi, senão suficiente, pelo menos necessário pra aguentar aquela noite cansativa e feliz.
Eu me convenci que sou uma pessoa sensível. Não no sentido de emoção, que eu também sou. Mas no sentido de sentidos, mesmo. Cor, sabor, som, luz, cheiros. Tudo isso me lembra dias, semanas, meses, épocas.
O café me lembra toda a minha vida. Ou pelo menos a parte em que eu estava consciente. Desde novinha, eu sentava na cozinha, conversando com as empregadas, com um pacote de biscoito maizena do meu lado, e conversava, conversava. Molhava o biscoito no café. Conversava, comia, conversava, comia. Acho que tive uma infância diferente.
Como filha única, não tive irmãos pra brigar nem pra brincar. Meus irmãos por parte de pai eram mais velhos, não viam graça no que eu fazia ou queria fazer. Então eu fui, algumas vezes, obrigada a ser adulta antes do tempo. Sentava pra ouvir as histórias, e ficava encantada com elas. Histórias da vida real, e não dos livrinhos de mentirinhas que as crianças costumam ouvir. Deles eu também gostava, claro. Qual criança não gosta de um desenho animado? Mas muitas vezes eu preferia a animação de ouvir fatos que aconteceram, contado por pessoas que tinham vivido o que contavam.
Nesse meio tempo, meus pais trabalhavam muito. Passaram a maior parte da minha infância entre uma viagem e outra, e foi assim que eu ganhei uma mãe de coração que tenho até hoje, minha babá da época. E foi assim também que eu ganhei doces lembranças, ainda que nem sempre adequadas pra uma menina de 5, 6, 7 anos, como eu era, de pessoas de carne e osso.
Na maioria das vezes, eram os empregados da minha casa. Eu tinha amigos, claro. No meu prédio, possuía um grupo de amigas, algumas das quais tenho até hoje. Mas com elas eu brincava de ser criança. Eu era criança, afinal. E aí eu sentia falta de passear pelo mundo adulto. Queria sentir mais de perto uma vida que estava perto da minha, mas que tinha muito mais emoção, mais ação. Não sabia eu que a minha também teria. Ou pelo menos eu acho que tem.
Assim, desde criança, quando eu ainda tomava café com açúcar, eu costumo sonhar.
Sonhar com aquilo que ainda não tenho, não sou, mas posso ser, ter, fazer. Adoro ser assim.
Mais do que isso, dessa época e dessa convivência, trago comigo uma das minhas maiores qualidades, ter aprendido a respeitar o outro. Não importa cor, raça, gênero nem condição social.
Porque eu tive um pai, por 18 anos, que foi o meu motorista. E ganhei uma mãe, que tenho até hoje, que era a minha babá. Continuo tendo, além deles, meus pais de sangue. Pai e mãe de sangue. Mas aprendi, com isso, que de onde menos se espera, podemos encontrar um alguém especial, diferente, que se preocupa com você, que busca a sua felicidade, que pode lhe amar, lhe querer bem, compartilhar a vida dele com você, e, não importa a idade, quando vai, deixa um pouco de si, e leva um pedaço de você.
Todas as pessoas que passaram na minha vida deixaram um pedaço delas comigo. E todas elas levaram também um pedacinho de mim. Mas, aos que me ensinaram, com tanto carinho, aos que cuidaram de mim como se eu fosse filha deles, aos que se preocuparam, olharam por mim enquanto meus pais não estavam lá, a essas pessoas eu agradeço por ter deixado comigo uma das melhores partes de mim.
Sempre pensei em um dia colocar isso pra fora, minha gratidão, amor, carinho, estima, por todas essas pessoas. Do meu pai-motorista que infelizmente hoje não tenho mais contato, à minha mãe-babá que eu amo como uma mãe ainda hoje, passando pelas empregadas que ficaram na minha casa por muitos anos, cozinharam pra mim, conversaram comigo, compartilharam comigo suas vidas, me fizeram entender e respeitar, me ensinaram a ser humilde, a todos vocês eu devo muito.
O café continua aqui, agora, sem açúcar, mas com adoçante. E através e por causa dele, eu estou aqui, sentada, alguns anos mais tarde, mais velha, mais consciente, provavelmente diferente, mas posso sentir, em uns poucos goles, o sabor de épocas que já não voltam mais..

Um comentário:

  1. Esse texto me fez lembrar também da minha infância e meu grande companheiro de todo dia: o Café. Criei esse habito, hoje não vivo sem um café durante a manha, ou pra uma boa prosa numa cafeteria. Sou filho único também, por isso me vi em você em alguns momentos, e é engraçado essa simetria de pensamentos, pois pensamos que tudo que sentimos e as atitudes que tomamos são apenas nossas, e que ninguém passou perto disso. A prova que a cada dia as pessoas são um belo paradoxo está aí.

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