9 de set de 2011

Saudosidades - Parte 3



Outra festa, estava deslumbrante e radiante, distribuindo alegria e obrigadas ao ouvir os elogios quando passava. Era a sua formatura na faculdade, finalmente. “Fiz questão de tirar uma foto com cada um deles, ouvir o que tinham a dizer, fazer novos planos e brindar à antigas e futuras conquistas, abraçar meus pais e familiares que estavam presentes, e agradecer a todos pelo apoio e por terem acreditado em mim. Poucos momentos na vida são mais emocionantes do que o fim de um sonho, porque dão espaço para o surgimento de outros - foi assim que terminei o meu discurso de oradora da turma. Fui aplaudida pelos meus professores, os já antigos colegas de faculdade, e todos que estavam presentes.”
Respirou fundo depois dessa última recordação. Olhos marejados de lágrimas, pensou em dar uma pausa e mergulhar no mar. A água gelada acalmaria seus pensamentos e as batidas de seu coração, o mar transportaria para seu corpo a calma que emitia, e aos poucos foi ficando mais leve. Olhou pra cima e deixou que o sol queimasse seu rosto, agora sem protetor solar como usava na infância, e sorriu sentindo-se completa e tranqüila. Olhou à sua volta para confirmar que estava sozinha, mas tão acompanhada de memórias e sensações que parecia estar rodeada por todos os quais lembrava. Em breve estarei, pensou. Saiu do mar, sentindo aquele cheiro de sal de sua infância, mas dessa vez não se encaminhou para um chuveiro. Continuou sentindo aquele cheiro e percebendo como grandes lembranças suas estavam associadas ao sol, ao mar, ao verão.
Viu-se primeiro em uma praia familiar, onde havia passado um carnaval rodeada de amigos, ainda jovens e acompanhados de sentimentos de cumplicidade, reciprocidade, amizade.. 


Foram confidências sinceras, brigas genuínas, raivas descontroladas e brincadeiras inconseqüentes, envolvidos em uma ausência de medo, vergonhas, julgamentos e intolerâncias, onde cada um pudera revelar-se a si mesmo, para si e para os outros, e de onde cada um saiu com a certeza de que raras seriam as chances de repetir a experiência, permitindo-se uma confiança cega e uma compreensão desmedida. Outros momentos como esse vieram à cabeça, com amigos de outras épocas, de diversos lugares e momentos, os quais pareciam ser eternos enquanto vividos..
Perdeu-se em lembranças desses pedaços de memórias, lembrou das fotos tiradas e das noites mal dormidas, das bebedeiras e das ressacas incuráveis, dos arranhões e quedas, das dores de garganta e febres, das inúmeras piadas contadas e que se perderam, das brincadeiras de criança que se transformaram em diversões de adultos, dos filmes assistidos e das historias inventadas, as viagens planejadas que davam certo ou nem tanto, os sonhos abandonados no meio do caminho..
Lembrou de seus pais e de como ouviam cada um de seus sonhos como se fosse o primeiro, e de como eram pacientes por ouvir, ouvir, ouvir.. E de quantas vezes tinha chorado, por qualquer motivo que fosse. Mas entre todos, o mais presente dos motivos havia sido o coração partido. Quantas vezes? Do primeiro beijo ao último que havia dado, perdera as contas dos amores e desamores que teve, correu pelos seus olhos a imagem de alguns deles, tão diferentes e distantes que lhe pareciam, alguns já não lembrava..

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