7 de set de 2011

Take your time




Algumas horas mudam seu destino por completo. Ontem você viajaria para passar um tempo fora, hoje você vai ficar com sua família enquanto faz planos de virada de ano. Amanhã você começa num emprego novo, depois de uma semana aparece uma promoção pra conhecer aquele lugar que você sempre quis. Não existem certezas que durem mais do que alguns segundos, e quando existem, é porque foram renovadas. E você pode sentir o que quiser, não vai ser capaz de alterar essa (in)felicidade.


A cada batida do relógio, a cada nova sombra e reflexo no mar, o que era pra ser, se torna passado precoce, e o que foi se torna uma memória distante. Ou vice e versa, ou ambos. O ponto de partida pra olhar essa cartela de possibilidades é ter em mente que a sua cor preferida também pode deixar de ser azul. E um dia o verde vai lhe parecer tão certo quanto sua vontade de ser astronauta na infância. Digo isso porque ando reparando nos caminhos, meus e de outros, os que tomei, tomaram no meu lugar, tomamos juntos ou separamo-nos por escolhas que nos parecem certas.






Não sei se você já viu Fringe, um seriado de ficção científica que eu particularmente adoro. Nele, um cientista com um QI próximo de 200, que ficou internado no sanatório por 17 anos de sua vida, passa a ajudar o FBI a resolver casos cheios de coisas fantásticas, associados ao que ficou chamado de o Padrão. Aparentemente um grupo chamado ZFT| pretende usar a tecnologia pra levar o mundo ao fim como se conhece, nisso se misturam vírus da gripe gigantes, mutações genéticas, alterações cerebrais, catalizadores de crescimento de tecidos cutâneos, enfim. Em alguns episódios, o cientista cujo nome é Walter Bishop, explica a uma agente do FBI, Olivia Dunham, sobre os universos paralelos. E ele explica que, do mesmo modo que nosso mundo tal como conhecemos e se nos apresenta, existem outros, nos quais um alguém muito semelhante a nós mesmos vive, também, mas baseado em outras escolhas que tomamos. Associado a esse evento, está o conhecido Dèja Vu, que segundo ele nada mais é do que um flash do que vivemos em outra realidade, que se confunde com a nossa por alguns segundos nos quais compartilhamos algum pedaço de consciência. Já imaginou se isso acontecesse com todo mundo? Se fosse uma capacidade acessível? Como comprar uma TV nova? Existem muitos mistérios que, por mais que sejam resolvidos, nunca chegarão ao nosso conhecimento. Por isso, não duvido daquilo que não conheço. Em breve o homem vai poder visitar a Lua, digirir carros voadores e sabe-se o quê mais neste século.



Penso como as pessoas viveriam se tivesse a oportunidade de saber o fim de suas escolhas, a que cada uma delas levaria. Seria mais fácil decidir, e provavelmente por esse motivo não temos acesso a essa informação. Quem quiser viver, que fique prevenido que o caminho é sinuoso. Já nascemos chorando, será que não existe alguma simbologia nesse ato? 

Qual caminho você escolheu, e qual você escolheria se soubesse o que está no fim?

Não sou muito fã da psicanálise como já fui enquanto estudante de psicologia, mas Freud tem uma frase que me faz continuar admirando sua inteligência, despite all his limitations. Ele diz algo como a vida ser um conjunto de pequenas felicidades. Vivemos em busca delas. Afinal, que vida chata seria aquela onde todo mundo ri em uníssono, initerruptamente, não? Mesmice nunca é boa, mesmo sendo boa, né?

O que eu sei é que se existe um sentimento que muitos compartilham, e faz parte daquela numerosa lista de fragilidades que são escondidas atrás de uma porta sem graça, muito bem trancada e cuja chave fica pendurada no pescoço do dono, é a insegurança, o medo do desconhecido, e principalmente, o receio diante das escolhas. Muitos só abrem a porta a partir do momento que tomam uma decisão, e nesse momento esvaem-se todos os pensamentos negativos e degenerativos, afinal, resolveu-se a questão do desconhecido! Pode abrir tudo, não há mais nada a temer.


Ledo engano, meus caros. O desconhecido não é o palhaço que você tinha medo quando criança, nem a montanha russa que você jurou nunca andar e viu quão boba era depois que sentou nela pela primeira vez. Ele é um vírus. Tal como o HIV, transforma-se constantemente, sofre mutações consecutivas cujo objetivo é o de não conseguir ser compreendido. Sem compreensão, não há cura. Exatamente por isso, o máximo que se pode conseguir diante dele é um coquetel que diminua seu avanço ou desagrave suas consequências, tal como o AZT. Percebe?



     Por isso, uma coisa que os pais não costumam dizer pros filhos, quando crianças, é que o hapily ever after dos filmes não bate com a prática. Melhor seria o to be continued, afinal nada termina antes que termine de uma vez por todas. No nosso caso, começo e fim compartilham uma função fisiológica comum: respirar. Sim, há milhares de variações, mas convergem no fato de ser o mesmo resultado para todos. Entre os dois pontos dessa linha do tempo, não há felicidade permanente nem nada sequer que dure, porque nem mesmo tal linha consegue ser reta, sem dobradiças, quebras de espaço ou negrito aqui e acolá.

    Com tantas incertezas, a certeza da inconstância esperava ser bem recebida. Pena que apegamo-nos a pequenos pedaços do que vivemos, e agimos mais uma vez como se fosse nosso primeiro ursinho de pelúcia ou carrinho de brinquedo. Talvez a filosofia do desapego queira, por fim, libertar as pessoas para que vivam temendo as coisas certas, ou não temendo coisa alguma.

      Movimentos à parte, o meu humilde ensinamento de hoje é inspirado em palavras de um amigo querido. Inquieta como sou, usei o que me disse pra causar uma revolução: peguei a chave e abri a porta, mas ainda não tomei nenhuma decisão. Afinal, se é pra viver de verdade e a chance é única, que seja com medo, insegura, acostumada à inconstância e compartilhando meus ursos e sorvetes. É um risco, me dá frio na barriga como se eu tivesse prestes a pular de bungee jump numa altura de 500 metros. Contudo, posso garantir que a minha casa está mais iluminada, porque agora todas as janelas estão abertas, o vento pode circular e o sol bate forte, refletindo no chão de madeira as sombras daquela porta outrora fechada, avisando que mais um dia vai começar.

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