10 de dez de 2008

Procure, pode estar no porão.

Às vezes tudo o que falta em um casal é o coração. Contraditório, não? Ah, uma coisa é você, como convidado, hospedar-se numa casa por uma semana, ser muito bem tratado pelos anfitriões e depois ir embora. Outra bem diferente é conviver com os mesmos por um mês, e ainda querer voltar nas próximas primaveras. O que isso tem a ver? Muitos casais nem se conhecem. Conhecem-se o suficiente para que o “amor” seja estável. Para quê (e importa?) mostrar tudo? Que se usem as máscaras! Não é para isso que são criadas? As máscaras foram criadas devido ao nosso medo. Porque o nosso coração fica lá no porão, escondido, palpitando e suando frio, com medo que o convidado, curioso, ouse atravessar as portas do permitido, e adentre a aparente escuridão do que vem além. As máscaras são as festas e tudo aquilo que pode ser ostentado, comprado, fingido, imitado. E o coração? Coitado, divide espaço com as caixas fechadas, as fotos borradas, as cartas rasgadas, o convite rejeitado. É assim a maioria das casas hoje. Não tem lugar pro desequilibrado. Tudo precisa ser planejado, organizado, medido, precisamente medido. Que ilusão! É exatamente isso que traz a necessidade de os móveis serem sempre trocados, das paredes serem repintadas, de novas flores serem plantadas. E de se comprar novas casas, ter-se novos filhos. Tudo pela covardia de não acender a luz do porão e ir ter uma conversa com alguém que poderia ensinar mais, muito mais, do que tudo aquilo que pode ser traduzido em cifras. Pergunte-me como, se ele está receoso, temeroso, aparentemente nervoso? Quem quer que seja, por mais especial que seja, acreditar-se-á um inválido se assim escutar durante toda uma vida. E o que dizem à ele? Senão que ele só traz problemas, prejuízo, sofrimento? Mas é claro! Não lhe dão tempo o suficiente! Para quê perder tempo num lugar escuro, poeirento, fedido, com alguém a quem não damos crédito? Vai-se lá somente o necessário. E escuta-se somente aquilo que é conveniente. Depois de ter ouvido tudo o que se quer, deixa-o lá. E vai-se às compras. De amigos, de valores, de oportunidades, de amores, de sorrisos. Porque tudo que não possa ser conquistado, é comprado. E aí? Perde-se o controle! O culpado é ele! Deu os conselhos errados! Ensinou o caminho mais difícil! Inútil! Ficará sem receber visitas, sem energia! Como se ele tivesse. A única luz que ele recebe, e, acredite, lhe é suficiente, é aquela que nasce e se põe todos os dias. Mas porque insistem em ir visitá-lo, por mais que demorem a fazê-lo? Ah, mas que falsa coragem! Que falsa coragem a de acusar, acusar, e depois ir procurar o acusado! Eu preciso responder? Pense! Precisa-se dele! Porque ele sabe coisas que não sabemos, que não estão à venda. Mas, como ele irá dizer-nos, se nunca temos tempo para escutar? “É preciso ter recursos! Ainda tem a feira a fazer, a massagem, o almoço.” E o convidado? Em um mês, fica perdido. Para onde foi a hospitalidade? Em que momento acabaram as prazerosas conversas daquela primeira semana? Para quê tantos compromissos? E a paz de um vinho, com as pernas esticadas? Era mentira? O que ele deve pensar? E a cozinha, que ele não tinha visitado, e não lhe agrada? Além dos quartos, confortáveis, limpos, arejados, o que mais? A lareira? Os móveis fofos? O sofá macio? O abajur? Ele precisa refletir, respirar, dar uma volta. Andar pelos cômodos. De repente, se depara com uma porta que não tinha notado. Não estava pintada. Era apenas conservada, nem de longe tão bem cuidada quanto o resto da casa. E entra.. Ali, seus olhos não conseguem enxergar. Espera, escuta uma respiração arquejante, pode ouvir o som da apreensão. Será ele? Quem está ali? Os olhos acostumam-se. Pode ver um contorno escuro em um canto. Parece suado, sujo, triste. Mas sorri. Dá pra sentir seu sorriso.. uma onda de calor percorre-lhe o corpo. Mas que sensação boa. Porque nunca tinha vindo aqui antes? Decerto, não é um lugar dos mais atraentes. Ainda assim, aquela figura, recostada na parede, lhe desperta atenção. Porque mantém-na aqui? Aproxima-se. Um passo. Pára, espera um sinal de aprovação. Nada. Continua.. mais um passo. E outro. Começa a delinear a sua forma. E vê um banquinho à sua frente. Parece ter sido limpo. Não está empoeirado. Estava ali quando ele chegou? Tem medo de olhar pra cima. Um, dois. Tropeça em alguma coisa. Olha pra cima. Os olhos daquela figura lhe sorriem ainda mais do que seus lábios. E o banquinho lhe é apontado. Para eu sentar? A cabeça balança afirmativa. E senta, tenso, mas curioso, ansioso. O que aquela misteriosa pessoa tem a lhe dizer? Entreolham-se. Por minutos, sem se dizer nada. Apenas sentindo o que aquela presença, sincera, lhes faz sentir. Sentindo e resistindo ao ímpeto de falar. Tendo paciência para esperar a hora certa, porque eles vão saber. “Esperei por você por muito tempo”, a figura fala. Eu? Mas você não sabe quem eu sou. “Você veio até mim. Procurou por mim”. Bem, não é bem verdade, mas.. “O quê? Não está curioso para saber quem eu sou?”. Muito. Quero saber tudo sobre você. “Pois eu começo lhe dizendo que contarei tudo. Mas antes preciso que você me diga uma coisa”. O quê? Qualquer coisa. “Você continuará me procurando?” Depende. Você será sincera? “Da forma mais pura que se pode ser”. Então eu continuarei. Prometo. “Mesmo que nem tudo o que eu lhe diga seja aquilo que espera ouvir?” E porque há de ser? “Não sei, mas muitos que aqui vieram o esperaram. Mas eu sinto que você é diferente dos outros que eu conheci”. Não devo exigir que você seja aquilo que eu desejo. “E o que você deseja que eu seja, então?” Desejo que você sorria. E me diga aquilo que nunca disse a ninguém. “Porque?” Porque olhar pra você me dá vontade de permanecer aqui, sentado, escutando tudo o que tem a dizer. Tenho todo o tempo do mundo. “Ah, porque você demorou tanto?”. Eu não sabia. “O quê? Não sabia de mim?” Só o que os outros me disseram. “E isso não lhe basta?” Não. “Porquê?” Porque você está aqui, quando você merecia estar num lindo jardim, respirando o perfume das flores, sentindo o vento bater no seu rosto e o sol queimar seu corpo.. “Finalmente.”

Um comentário:

  1. Quero esta porta abrir e neste banquinho sentar pois ai sim escutrei tudo que esta tal pessoa tem a dizer! Pois deixar o amor de lado muitas pessoas deixam mas eu so busco a essencia da felicidade e minha poeta e musa escreves muito bem continue assim minha escritora predileta! Leio tudo que escreves pois cada palavra que escreves mexe comigo!
    Beijos Romanticos do seu poeta Leo!

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